sábado, março 19, 2011

Kê Li Kê Lá projecto de sensibilização artística

Kê Li Kê Lá


Apresentação do projecto e projecção de filmes

Quarta, 23 Mar 2011

18:00

Aud. 2

Entrada livre





Kê Li Kê Lá – expressão que significa “Ah… e tal!” em crioulo – é um projecto de sensibilização artística e formação em cinema que tem como protagonistas os jovens residentes no bairro do Casal da Boba, na Amadora. Com duração de dois anos e o apoio da Fundação Gulbenkian, o projecto Kê Li Kê Lá funciona como um espaço onde jovens dos 13 aos 23 anos interagem com artistas e profissionais de cinema no âmbito de vários workshops, dando a conhecer a sua vida e cultura, por um lado, e, por outro, adquirindo ferramentas técnicas e artísticas para se exprimirem criativamente. Com a Escola Profissional Gustave Eiffel (Amadora) a servir de base de operações e com o apoio de outras organizações do bairro da Boba, estes jovens têm frequentado módulos de interpretação, de criação de personagens, de género documental e fotografia, entre outros, desenvolvendo um trabalho contínuo de auto-conhecimento.





O projecto Kê Li Kê Lá surge na sequência de outras acções desenvolvidas junto da população do bairro do Casal da Boba que culminaram na realização da longa-metragem Li Kê Terra, vencedora da última edição do Doclisboa. Inicialmente inspirado na metodologia adoptada pelo filme A Turma (Entre Les Murs, de Laurent Cantet, 2008), através do ensino das técnicas audiovisuais e de um conhecimento aprofundado sobre o género documental, Kê Li Kê Lá pretende reunir histórias de vida, a fim de conceber um argumento original para uma longa-metragem que pretende colocar os habitantes do bairro nos dois lados da objectiva.





No dia 23 de Março, a partir das 18h, haverá uma apresentação global de Kê Li Kê Lá no Auditório 2 da Fundação, em que estarão presentes a realizadora e autora do projecto Filipa Reis (Vende-se Filmes), bem como os coordenadores dos módulos de Interpretação e de Documentário, Romeu Costa e Leonor Noivo, respectivamente. Os jovens envolvidos no projecto também irão participar neste encontro, representando ao vivo cenas das curtas-metragens que realizaram no final de 2010, no âmbito do laboratório de Documentário, e que serão exibidas no decorrer da apresentação, que contará ainda com uma exposição de fotografia.











MAIS INFORMAÇÕES

Programa Gulbenkian Desenvolvimento Humano

quinta-feira, março 17, 2011

Pintoras Galegas e Portuguesas Presentes na Exposição no Museu da República



Bela Exposição no Museu da República
e Resistência em Benfica

Serviço Social Português CANTE REPUBLICANO

terça-feira, março 15, 2011

Memória do Serviço Social Português: Actas da Câmara Corporativa 1

REPÚBLICA PORTUGUESA




ACTAS DA CÂMARA CORPORATIVA



N.º 73 VI LEGISLATURA 1956 23 DE JANEIRO



Projecto de proposta de lei n.º 516



Alterações ao Decreto-Lei n.º 30 135 (organização e funcionamento dos Institutos de Serviço Social)



1. O Decreto-Lei n.º 30 135, de 14 de Dezembro de 1939, estabeleceu as normas para a formação do pessoal técnico, tanto para os serviços públicos como para as instituições particulares, que, em qualquer forma da sua actividade, se propusessem fins de educação e auxílio social, e desde então por tais normas se têm regido o Instituto de Serviço Social, de Lisboa, e a Escola Normal Social, de Coimbra.

Decorridos dezasseis anos, verifica-se a necessidade de introduzir certas alterações no preceituado pelo referido decreto-lei, alterações destinadas principalmente a conseguir uma correspondência mais perfeita às exigências de evolução social portuguesa, que, semelhantemente à de outros países, reclama se dê cada vez maior incremento às actividades de grupo, educativas e culturais, aos movimentos de organização das comunidades e aos estudos de carácter sociológico em que essas actividades e movimentos forçosamente têm de basear-se.



2. Assim, considera-se indispensável admitir a existência de dois tipos de trabalhadoras sociais: umas- as monitoras familiares e as assistentes familiares - mais particularmente votadas aos problemas educativos, pedagógicos, recreativos, culturais e da vida familiar; outras -as assistentes sociais- dedicando-se mais especialmente aos problemas de saúde, de trabalho, de auxílio social, de pesquisa e planeamento sociais, visando-se, pela actuação de todas, obra eminentemente construtiva, de estruturação de grupos equilibradamente evoluídos, de formação integral de personalidades conscientes, capazes de se realizarem por si mesmas, de conseguirem progresso pelo seu próprio esforço e de contribuírem assim para o bem comum.



3. Afigura-se também necessário realizar no plano de estudos do curso de serviço social algumas modificações, designadamente no tocante à distribuição das disciplinas pelos vários anos, por forma que o primeiro seja de facto de iniciação geral, no segundo as atenções se dirijam particularmente para as situações especiais dos indivíduos e das famílias e no terceiro e no quarto se possa insistir sobretudo nos aspectos de trabalho e de educação, nos problemas dos meios, das comunidades e dos grupos, fazendo-se ensaios de estudos sociológicos e realizando-se já trabalho social efectivo.

Estas modificações só são possíveis acrescentando-se um ano à duração do curso, como se propõe.



4. Igualmente se considera necessário fixar a orgânica dos cursos de educação familiar até hoje ainda não aprovados oficialmente, mas cuidadosamente estudados e experimentados desde 1936, o que permite adoptá-los com segurança, como sendo os mais adequados às necessidades e possibilidades da actual situação portuguesa, bem como às do previsível futuro mais próximo.

Não foi sem hesitações que se alargou para quatro anos o curso de assistente social e se deu a mesma duração ao curso de assistente familiar. Hesitou-se igualmente quanto à constituição do curso de monitora familiar e, quanto à exigência para admissão nesse curso das mesmas habilitações que se exigem para; admissão no curso de serviço social. Mas os técnicos ouvidos sobre estes pontos e as próprias escolas defendera e justificam as soluções propostas.



5. A experiência tem mostrado que não é possível, nem seria mesmo conveniente, fixar nos meios rurais as

obreiras sociais habilitadas com os cursos referidos na base II deste diploma.

Por isso se dá ao Ministério da Educação Nacional a possibilidade de criar, em quaisquer localidades do País, cursos de índole mais modesta, com orientação adequada, destinados especialmente à preparação de educadoras para actuarem naqueles meios.

Nestes termos, o Governo tem a honra de apresentar à Assembleia Nacional as bases seguintes:



BASE I



Pelo Ministério da Educação Nacional, e dentro do quadro dos estabelecimentos de ensino particular, poderá ser autorizado o funcionamento de escolas destinadas à formação de assistentes sociais, de assistentes familiares e de monitoras familiares, por forma a assegurar a satisfação da necessidade de pessoal técnico, tanto dos serviços públicos como das instituições particulares, que, em qualquer aspecto da sua actividade, se proponham fins de educação e auxílio social nas suas formas de serviço social, educação familiar ou acção social.

Essas escolas terão organização diferenciada e autónoma e a sua direcção será constituída por pessoas de nacionalidade portuguesa, sem embargo da faculdade de recurso à colaboração de professores estrangeiros quando o exijam as necessidades do ensino.



BASE II



Nas escolas de serviço social poderão funcionar todos ou alguns dos seguintes cursos:

a) Curso de serviço social;

b) Curso geral de educação familiar;

c) Curso normal de educação familiar.

O curso de serviço social tem a duração de quatro anos e prepara assistentes sociais. O curso geral de educação familiar, com a duração de dois anos, prepara monitoras familiares. O curso normal de educação familiar tem a duração de dois anos e prepara assistentes familiares.

Estes cursos constam de estudos teóricos e práticos, revestindo a forma de aulas, visitas de estudo e estágios, elaboração de relatórios e de outros trabalhos e realização de trabalho social efectivo, conforme programas a fixar pelo Ministério da Educação Nacional.



BASE III



Poderão ser criados cursos de especialização técnica por despacho do Ministro da Educação Nacional, sobre requerimento fundamentado de uma escola de serviço social autorizada e parecer da Junta Nacional da Educação, devendo ter-se em conta, para a determinação da sua duração orgânica e programas, as necessidades da actividade social tanto no continente metropolitano como nas ilhas adjacentes e províncias ultramarinas.

Continua em vigor o disposto nos Decretos n.os 35 457, de 19 de Janeiro de 1946, e 35 682, de 3 de Junho de 1946, relativos ao curso de especialização técnica para a formação de assistentes de serviço social corporativo.



BASE IV



Pode o Ministro da Educação Nacional, ouvida a Junta Nacional da Educação, autorizar nos escolas de serviço social, ou fora delas, a criação de cursos de educação familiar de índole elementar, destinados a preparar agentes da educação familiar para os meios rurais.



BASE V



A admissão à matrícula no curso de serviço social e no curso geral de educação familiar só é permitida a candidatas que tenham, pelo menos, 17 anos de idade e alguma das habilitações seguintes:

a) 3.º ciclo do curso dos liceus ou cultura, equivalente, comprovada em exame de aptidão a realizar na escola em que pretenda ingressar;

b) Curso do Magistério Primário;

c) Qualquer curso que permita a matrícula em escola de ensino superior.

Para admissão à matricula no curso normal de educação familiar exigem-se cumulativamente as seguintes condições:

a) Idade não inferior a 20 anos;

b) Habilitação do curso geral de educação familiar;

c) Um ano de trabalho efectivo como monitora familiar;

d) Exame de aptidão a realizar na escola em que pretenda ingressar.

Para admissão à matrícula nos cursos de especialização técnica exigir-se-á a habilitação do curso de serviço social ou do curso normal de educação familiar e aptidão, a comprovar pela forma que o Ministério da Educação Nacional determinará para cada curso.



BASE VI



0 aproveitamento das alunas do curso de serviço social, do curso geral de educação familiar e do curso normal de educação familiar será em cada escola anualmente verificado por meio de provas prestadas perante os respectivos júris de exame, não podendo ser concedido o certificado final sem a aprovação em todas as matérias do curso frequentado.

As profissionais habilitadas com o certificado final daqueles cursos terão direito ao uso dos títulos de assistente social, monitora familiar e assistente familiar, respectivamente.



BASE VII



A concessão dos diplomas oficiais do curso de serviço social e do curso normal de educação familiar só poderá ter lugar depois de dois anos, pelo menos, de trabalho profissional efectivo e dependerá da prestação de provas perante um júri único, de três a cinco membros, nomeado pelo Ministro da Educação Nacional, com intervenção de professores das escolas e uma delegada da Obra das Mães pela Educação Nacional.

As profissionais habilitadas com os diplomas oficiais daqueles cursos poderão usar os títulos de assistente de serviço social e de assistente de educação familiar, respectivamente, e terão preferência no provimento de lugares que impliquem funções de auxílio social ou educação.



BASE VIII



As profissionais a que se referem as bases II, III e IV da presente proposta de lei serão obrigadas à observância do «segredo profissional» relativamente aos factos de que tenham tido conhecimento exclusivamente em virtude do exercício da profissão.



BASE IX



Fica o Governo, pelo Ministério da Educação Nacional, autorizado a tomar as providências que julgue adequadas no sentido de acautelar os legítimos interesses, não só das alunas que presentemente frequentam os cursos de educação familiar no Instituto de Serviço Social, de Lisboa, e na Escola Normal Social, de Coimbra, mas também das profissionais já habilitadas com os referidos cursos daqueles estabelecimentos.



Ministério da Educação Nacional, 7 de Janeiro de 1956. -O Ministro da Educação Nacional, Francisco de Paula Leite Pinto.



IMPRENSA NACIONAL DE LISBOA






recolha de Alfredo Henriquez

segunda-feira, março 14, 2011

Serviço Social No Feminino Últimos Exemplares para Venda

Livros de Serviço Social Disponiveis


A Investigação em Serviço Social de Myrian Veras Baptista

Continuamos a
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sábado, março 12, 2011

Centro Português de Investigação em História e Trabalho Social : 15 Anos de Investigação Activa 1

CPIHTS 
15 anos de Investigação activa (1)
Exmos. Senhores,
Em nome do Centro Português de Investigação em Historia e Trabalho Social gostaria de agradecer à Directora do curso e a toda  a equipa organizadora deste evento científico, o amável convite que nos foi dirigido pelo ISM para comparecer neste Seminário Internacional Euro-Brasileiro de Serviço Social, inserido nas comemorações dos 70 Anos do Instituto Superior Miguel Torga.
1.- Ao iniciar a comunicação gostaria de evocar o nome do médico e activista, Dr. António Melic Cerveira, falecido recentemente nesta cidade de Coimbra, que se distinguiu em vida pelo seu trabalho na saúde comunitária e mental, no género, na oftalmologia e na defesa do património científico, ecológico e cultural. Muito terá beneficiado a comunidade de Coimbra, de Lisboa e de Alcácer do Sal e, em particular, o CPIHTS, pela sua acção generosa e meritória.
O Centro Português de Investigação em História e Trabalho Social (cpihts) é uma instituição que encontra a sua génese na década de Oitenta e que consolidou o seu estatuto de associação científica e de centro de investigação de Serviço Social na década de 90.
Fundada por assistentes sociais foi integrando investigadores nacionais e internacionais de varias áreas das Ciências Humanas e estabelecendo protocolos de colaboração com diversos instituições congéneres do categoria. Tendo como objecto central o Serviço Sócia! e os problemas sociais, tem sabido privilegiar algumas linhas de actuação que se revelaram e concretizaram de forma profícua, provocando um efeito multiplicador, pela sua  seriedade cientifica.
Assinalamos no presente ano, o início das comemorações dos seus quinze anos de trabalho de investigação a partir da publicação do livro Corpo, -Sexualidade e Violência Sexual, -Análise e Intervenção Social, da nossa colaboradora, a Prof. Doutora em Serviço Social Marlene Braz Rodrigues, editado em parceria internacional com centros de investigação do Brasil e dos Estados Unidos e com o patrocínio da APSS
Confirma o nosso cominho a inclusão dos nossos trabalhos nos currículos de graduações e pós-graduações bem como nos concursos de promoção em Portugal como no estrangeiro.
2. A Actividade de Investigação e o Futuro
Falar do panorama, actual da investigação em Serviço Social pode ser promissor em termos prospectivos.
Nos últimos anos verificamos
*     A qualificação académica em Serviço Social à luz dos planos curriculares das licenciaturas de 4 e cinco anos que integraram pela primeira vez a investigação em Serviço Social, fornecendo as bases fundamentais para a aprendizagem das metodologias, a pesquisa e o treino nesta área.
*     A organização de cursos de pós-graduação em Serviço Social (mestrado e doutoramento) e também os cursos de especializações em áreas chaves da prática profissional,
*     A organização de núcleos e centros de investigação, formados para a reflexão, intervenção social e vida académica, podem constituir a aquisição e o reforço desta dimensão na categoria profissional o treino e a produção de cientistas em Serviço Social
*           A publicação de ensaios, teses, artigos, recensões e comunicações, apesar de condicionalismos económicos e logísticos, começaram a ser mais numerosos e alguns esgotados, a espera de segundas edições.
*    Multiplicaram-se os eventos de formação contínua, as reflexões e os debates entre estudantes e académicos da categoria, embora poucos destes espaços  terão consolidado a sua organização
3.- No entanto algumas reservas devem ser colocadas sobre este assunto a saber:
3.1.- Os presentes planos curriculares à luz de Bolonha (escolas com 3 e 3 anos e médio) dão garantias precárias da afirmação da tendência anterior: licenciados em Serviço Social aptos para a intervenção social, dominadores da teoria do Serviço Social e das Ciências Sociais; preparados para a intervenção e a investigação social.
Só a continuação de pós-graduações na nossa área podem colmatar estas deficiências. O que traz um encarecimento monetário significativo para a formação em Serviço Social apesar de Bolonha ter diminuído consideravelmente as cargas horárias acompanhada da insuficiência no ensino. Os custos dos cursos não diminuíram.
3.2.- A colocação desigual no mercado de trabalho.
Existe de facto um desfasamento entre estas duas gerações de Assistentes Sociais que se colocam no mercado com conhecimentos diferenciados. Para não falar de casos isolados de assistentes sociais que vieram de regresso, fruto do processo de descolonização nos anos 70 e mais tardiamente dos últimos territórios portugueses na Ásia.
Convêm reter este dado histórico: nos anos 80/90 os assistentes sociais que não reuniam requisitos curriculares, porque frequentaram cursos de auxiliares sociais ou outros para efeitos de carreira (para serem integrados na carreira técnica e posteriormente na técnica superior de serviço social) foram obrigados a frequentar cursos nos próprios institutos existentes em Lisboa, Coimbra e Porto.
Em suma, milhares de profissionais de Serviço Social são colocados no mercado de trabalho, cujas normas são alteradas consecutivamente, provocando desigualdades que só se explicam pelas mudanças cíclicas do próprio desenvolvimento deste.

continua...

sexta-feira, março 11, 2011

Homens da Luta Ganham Festival da Canção em Portugal

A Intervenção Social Estetica na Musica o Caso dos Portugueses Gel e Falancio

Ética e Serviço Social: Abolida a Pena de Morte no Estado de Illinois

L'Illinois a aboli mercredi 9 mars la peine de mort, devenant le 16e Etat américain à abandonner le châtiment ultime, a annoncé le bureau de Pat Quinn, gouverneur démocrate de cet Etat du nord des Etats-Unis, fief du président Barack Obama.

L'abolition avait été adoptée par le Parlement de l'Illinois en janvier, mais le mystère restait entier quant à sa ratification par Pat Quinn, qui venait d'être élu gouverneur et qui s'était déjà prononcé en faveur de la peine de mort. "Notre système de peine capitale est intrinsèquement truffé d'erreurs", a estimé le gouverneur dans un communiqué.
L'Illinois a une histoire récente mouvementée sur ce sujet, qui s'est soldée en 2003 par la commutation de toutes les condamnations à mort en prison à vie par le gouverneur républicain George Ryan après trois ans de moratoire.
Le débat avait éclaté en 1999 lorsque des étudiants de la Northwestern Universityavaient réussi à prouver l'innocence d'un condamné à mort dans l'Illinois. "Nous ne pouvons pas tolérer l'exécution d'innocents, parce que cela hypothèque la légitimité même du gouvernement" de l'Illinois, a poursuivi M. Quinn, qui s'est exprimé devant la presse à Chicago. Aujourd'hui, quinze condamnés sont enfermés dans le couloir de la mort de cet Etat qui n'a pas exécuté depuis 1999.
http://www.lemonde.fr/ameriques/article/2011/03/09/l-etat-de-l-illinois-abolit-la-peine-de-mort_1490824_3222.html#ens_id=1490827

segunda-feira, março 07, 2011

Música Portuguesa:Fausto Bordalo

domingo, março 06, 2011

Rendas de Bilros: Investigação do Professor Mariano Calado


Não é conhecida a origem da renda de bilros. Sabe-se que povos muito antigos usavam tecidos cujo aspecto se assemelhava a renda e que se presume fossem elaborados de forma semelhante à renda actual. Admite-se que os Fenícios podem ter sido agentes divulgadores das rendas, através das suas trocas comerciais e, portanto, também ao longo da costa marítima portuguesa, onde estabeleciam contactos privilegiados. Outra corrente afirma terem chegado ao nosso país através dos contactos com o norte da Europa, onde a arte apareceu nos seus principais portos.




Definição

É um trabalho formado pelo cruzamento sucessivo ou entremeado de fios têxteis, executado sobre o pique e com a ajuda de alfinetes e dos bilros. O pique é um cartão, normalmente pintado da cor açafrão para facilitar a visão por parte da executante, onde se decalcou um desenho, feito por especialistas, cuja origem está na criatividade da autora, que por vezes recorre à estilização de objectos naturais como as flores e animais.



Os alfinetes fixam o trabalho ao pique e são colocados em furos estrategicamente efectuados no desenho base. O bilro é um artefacto de madeira em forma de pêra alongada onde é enrolada a linha (fio têxtil) que vai sendo descarregada à medida que o trabalho avança. Todo o trabalho é executado com o auxílio de uma almofada cilíndrica, onde é fixado o pique, que, por sua vez, está pousada sobre um banco de madeira cuja forma permite a fácil alteração da posição da almofada, que roda sobre si, enquanto permita uma posição cómoda a quem executa.



História

Indefinida que está a sua origem resta apurar a data do seu aparecimento no nosso país e, como tal, consta que a primeira vez que se falou na palavra renda, entre nós, terá sido no reinado de D. Sebastião em 1560.



No reinado de D. João V o país foi inundado e influenciado pelas rendas com origem na Flandres, dado que o protocolo da corte obrigava ao uso das rendas flamengas, facto que veio prejudicar o desenvolvimento das nacionais. Esta situação originou a revolta das rendeiras nortenhas que enviaram o seu protesto, perante o rei, através da vila-condense Joana Maria de Jesus, que conseguiu permissão para o uso das rendas nacionais em lenços, lençóis, toalhas e outro bragal de casa, continuando proibido o seu uso pessoal. As rendas nacionais foram libertadas destas peias em 1751, no reinado de D. José, passando a poder ser usadas na roupa branca de uso das pessoas, toalhas, lençóis e outras alfaias da casa. Porém a entrada na capital das rendas feitas no resto do país era sujeita ao acompanhamento de guias passadas pelos escrivães das câmaras, embora, pelo facto de na sua feitura se empregarem somente pessoas pobres, estivessem isentas de impostos.



E foi assim que na classificação das rendas se passou a denominar de aristocráticas, hoje em Peniche chamadas eruditas, aquelas que imitam as estrangeiras por serem mais elaboradas e utilizando linhas finas, e as populares que são aquelas que tradicionalmente sempre foram feitas pelo povo.



"Onde há redes há rendas" e Peniche não foi excepção, como não foram quase todas as povoações do litoral onde se desenvolve actividade piscatória. Num livro publicada em 1865 pelo então capitão do porto Pedro Cervantes de Carvalho Figueira refere-se que umas senhoras, que na época contavam mais de oitenta anos, afirmavam que a sua tia/avó lhes mostrava piques das rendas que tinha feito em menina, o que atesta que as rendas, em Peniche, já se faziam em meados do século XVIII.



Renda de Bilros em Peniche

Consta que em 1836 a mulher do Conde de Casal (que aqui se encontrava como governador da praça), analisando as rendas grosseiras que aqui se faziam, entendeu que, se se usassem materiais mais delicados, como linhas mais finas e desenhos elaborados, seria possível obter produto de melhor qualidade. Com o auxílio de um engenheiro em serviço na praça pôs em acção o seu plano, do que resultou sensível melhoria da qualidade, o que permitiu que as nossas rendas fossem premiadas em eventos internacionais logo nos anos de 1851 (Paris e Londres), 1857 e 1861 (Porto), 1872 (Viena de Áustria) e 1878 (Paris).



A originalidade e a qualidade das rendas de bilros de Peniche atingiram tal grau de perfeição e notoriedade, que toda e qualquer renda de bilros portuguesa passou a ser conhecida, simplesmente, por renda de Peniche. Em meados do século XIX existiam em Peniche quase mil rendilheiras e, segundo Pedro Cervantes de Carvalho Figueira, eram oito as oficinas particulares onde crianças a partir dos quatro anos de idade se iniciavam na aventura desta arte.



Em 1887 foi criada a Escola Industrial D. Maria Pia com uma secção de rendeira, que deu continuidade ao rejuvenescimento encetado em 1836. Foi sua primeira directora a D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro que impulsionou o artesanato através da criação de novos e perfeitos desenhos. Assim as nossas rendas voltaram a ser premiadas em 1889 (Paris), 1893 (Belém) e 1895 (Paris).

Da Escola Industrial D. Maria Pia resultou a Escola Josefa de Óbidos, posteriormente denominada Escola Industrial de Peniche e entretanto a sua actividade passou a integrar a Escola Secundária de Peniche, onde hoje nada existe sobre rendas e o seu espólio acabou por ser desbaratado. Toda a actividade destas escolas foi formando pessoas que aprenderam a arte de desenhar, elaboração de piques e manufactura de renda, dependendo da sua capacidade criativa a preservação da qualidade das rendas de bilros de Peniche.



Paralelamente à actividade destas escolas existiu a Casa de Trabalho das Filhas dos Pescadores, que estava na dependência da Casa dos Pescadores e que, ao longo de quatro décadas, constituiu uma forma de assistência às filhas dos pescadores, com base nos ensinamentos ministrados, entre os quais a renda, e de um pequeno salário base. Também a paróquia, por iniciativa de Monsenhor Bastos, em fase crítica da produção de rendas, criou uma oficina de rendas junto do Lar de Santa Maria. Finalmente a Câmara Municipal de Peniche, em Setembro de 1987, abriu uma Escola de Rendas, que se encontra a funcionar com a frequência de adultos e crianças.



Por iniciativa particular de um grupo de interessados na preservação das rendas de Peniche foi fundada em Setembro de 1994 a Associação Peniche Rendibilros, com o objectivo de preservar e promover a aprendizagem e divulgação das rendas de Peniche.



Actualidade

Com o advento da industrialização, as rendas de bilros de Peniche foram sofrendo uma regressão, que atingiu o seu ponto mais drástico com a extinção da disciplina facultativa da sua aprendizagem no ensino secundário. Felizmente que, a par de outras iniciativas particulares, com o aparecimento dos Artesãos de Santa Maria (da responsabilidade da paróquia), da Escola de Rendas de Peniche (da Câmara Municipal) e da constituição da Peniche – Rendibilros (Associação para a defesa e promoção das rendas de bilros de Peniche), esta arte encontra-se actualmente salvaguardada e dignificada, sendo mais de meio milhar as penicheiras que sabem tecer renda de bilros ou se dedicam à sua confecção. E anualmente, no terceiro Domingo de Julho, celebra-se o Dia da Rendilheira, agora inserido no programa da Semana da Rendilheira, dedicado especialmente às rendilheiras, muitas são, de facto, as que, no Jardim Público, se exibem perante milhares de pessoas maravilhadas com a beleza das suas obras.



Observa-se, neste momento, o renascer do interesse pelas rendas, mercê do apoio que tem sido prestado pela nossa autarquia, como contrapartida do desinteresse do Governo Central que retirou o curso das rendas das escolas oficiais, mantendo a escola referida, promovendo concursos anuais e instituindo a semana da renda, onde se salienta a passagem de modelos com aplicações de renda em vestuário, terminando com o Dia da Rendilheira como acção pública de divulgação e promoção das rendas.



Bibliografia

•"Peniche na história e na lenda", de Dr. Mariano Calado

•"Bordados e rendas de Portugal", de Dr. Manuel Maria de Sousa Calvet de Magalhães

in http://terrasdeportugal.wikidot.com/rendas-de-bilros-de-peniche

sábado, março 05, 2011

História do Serviço Social: Testemunho da Professora Doutora Myrian Veras Baptista

Eu quero primeiro agradecer e dizer que é um prazer estar aqui. Morei em Londrina, dois anos. Já faz ‘um pouco de tempo’: foi bem antes dos 35 anos desta universidade. O meu marido trabalhou na companhia que construiu a Rodovia do Café. Então, morei em Ponta Grossa, em Londrina... Depois, nós tivemos o golpe militar e eu fui para Curitiba, onde fiquei 10 anos. Foi por isso que a Silvia[2] falou que eu sou quase paranaense, porque, de fato, não só morei aqui bastante tempo, como gostei muito e fiz grandes amizades, amizades que existem até hoje. Não é Lídia[3]? Lídia é do meu tempo de Curitiba, mas ela é bem mais nova, bem mais nova. Só para vocês terem uma idéia, eu fui supervisora da Odária[4] quando ela estava fazendo seu TCC. Quem orientou o TCC da Odária fui eu.
A Silvia quando me convidou disse que era para conversar um pouco com vocês. Eu até pensei que fosse uma coisa menos formal. Vou confessar que se eu soubesse que era assim, mais formal, eu teria preparado um discurso, mas, como já não preparei, agora, vamos assim por esse caminho.
Eu pensei em fazer essa minha fala em duas partes: a primeira, com uma reflexão sobre a origem do Serviço Social no Brasil. Eu coordenei - antes do núcleo de pesquisa da criança e do adolescente que coordeno agora - um núcleo de pesquisa sobre a história do Serviço Social. A Lídia fez parte desse núcleo. Dele saíram várias teses de doutorado e algumas dissertações de mestrado. Então, nessa época, nós pesquisamos a história. Eu mesma já vivi uma boa parte dessa história, desses 70 anos. Eu já fiz o meu jubileu de ouro como assistente social: 50 anos de formada. Então, desses 70 anos, 50 eu vivi diretamente.
Existem algumas coisas de que eu posso falar a partir da minha própria experiência e outras que são resultado de minhas análises, das apreensões que fui fazendo com base nos relacionamentos que tive com as pioneiras e com os pioneiros. A faculdade onde eu fiz o meu curso foi a primeira escola de Serviço Social do Brasil - a Escola de Serviço Social de São Paulo – que, na época que eu estudei se situava na rua Sabará, em Higienópolis, um bairro nobre da cidade. É essa mesma escola que agora está integrada na PUCSP. Naquela época ela já era uma escola ligada à Universidade Católica, que funcionava em uma casa isolada. Era uma escola isolada, mas que fez história.
Então, nesta primeira parte, eu pensei em contar um pouco a respeito do meu olhar sobre essa história. Porque a história, além de ser muito dinâmica e construída no contexto das relações, tem o significado do olhar de quem a olha. Eu vou falar para vocês sobre o meu olhar sobre a história: como eu vejo aqueles primeiros anos do serviço social e como vejo essa história se construindo até agora. Na outra parte, eu penso em falar da minha participação na criação da escola de Londrina, na qual eu tive, de certa forma, uma pequena colaboração, mas que foi importante até para sua existência.
A construção de uma profissão ou de uma instituição é resultante do movimento da história. No século XIX, a sociedade ocidental estava em um processo de transição bastante acentuado para um novo tipo de relação social e econômica no contexto do capitalismo, o capitalismo monopolista. As evidências do capital como determinante do processo de produção, que tiveram início em meados do século XVIII, se consolidaram no século XIX, quando também começaram a preocupar os problemas que estavam gerando. Na emergência da industrialização, da concentração de riquezas e do modelo capitalista de relações de trabalho, existia uma grande esperança de uma nova e melhor qualidade de vida para a população, mesmo porque, com esse novo tipo de relação de trabalho, abolira-se a servidão. Existiam os feudos, os moradores daqueles feudos eram servos, não eram escravos, mas eram servos, não tinham direito à propriedade do território onde viviam; pagavam impostos sobre a sua produção ao senhor feudal e lhes juravam fidelidade. Este tipo de relação social começou a se desmanchar e um novo tipo de relação emergiu, na qual o trabalho era acertado por contrato e o gentio teve acesso à propriedade privada. Com o uso de novos e mais avançados maquinários, houve aumento da produção, dando espaço para que se tivesse a expectativa de que se iria acabar com a fome, e que as pessoas teriam melhores condições de vida e de trabalho. Essas esperanças, aos poucos, foram sendo frustradas pela realidade, onde ia se engendrando algo que, já então, passou a ser nominado de questão social, desencantando diferentes segmentos da sociedade.
Por essa época, começaram emergir críticas e preocupações com os rumos da sociedade em razão do tipo de relações construídas no sistema capitalista. A pobreza, que já existia muito antes da implementação desse novo sistema, ficou mais evidente aos olhos da sociedade, principalmente por causa da concentração de pessoas pobres nos centros urbanos e da ausência de quem por elas se responsabilizasse. Nos feudos, a servidão era um problema mas, ao mesmo tempo, era uma solução para os problemas de segmentos mais vulneráveis da população: os senhores feudais eram responsáveis pelos seus servos, assim como os donos de escravos eram responsáveis pelos seus escravos. Tanto entre os antigos servos, quanto entre os antigos escravos, a abolição do regime foi, ao mesmo tempo, um momento de libertação e de mudança, mas também um momento muito trágico de luta pela sobrevivência para grandes contingentes populacionais. 
Análises feitas nos anos 1800, sobre a situação da população nesses primeiros tempos do capitalismo, da industrialização, foram deixando muito evidentes esses problemas. Também se evidenciou a exploração da mão-de-obra, não apenas dos adultos: havia crianças desde muito pequenas trabalhando em trabalhos pesados e insalubres. Chegaram até nós documentos que mostram essa realidade. Havia problemas muito sérios, que foram denunciados, principalmente, pelos chamados ‘socialistas utópicos’, nas primeiras décadas do século XIX  (Saint-Simon, Fourier, Owen) e, em 1848, pelo Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels.
Essa realidade preocupava diferentes grupos e, principalmente, a Igreja Católica, que, nos finais do século XIX, escreveu uma encíclica colocando a posição da Igreja frente a essas relações capitalistas. Nesta encíclica, de 1891, chamada Rerun Novarun, a Igreja denuncia a questão social, pondo em discussão um dos princípios fundamentais do liberalismo: a crença no funcionamento das leis de mercado. A Rerum Novarum apresentava uma proposta de sociedade como contraponto à questão social. Esta proposta foi conhecida como uma “terceira via”, que negava o capitalismo selvagem e o comunismo materialista e propunha o humanismo cristão. Dizia Leão XIII: De nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital... Essa proposta foi reafirmada quarenta anos depois, por Pio XI, em 1931, em uma outra encíclica que foi chamada Quadragésimo Ano. Esta encíclica avançou mais nas propostas que compunham o que hoje conhecemos como a Doutrina Social da Igreja. Nela, Pio XI afirmava serinteiramente falso atribuir, ou só ao capital ou só ao trabalho, o produto do concurso de ambos, e é injustíssimo que um deles, negando a eficácia do outro, se arrogue a sí todos os frutos.
 Na verdade estas Encíclicas não representavam uma recusa ao capitalismo como meio de produção, mas continham uma proposta de humanização das relações capital/trabalho, através da justa distribuição dos resultados da produção, do salário justo que possibilitasse ao trabalhador a manutenção de si próprio e de sua família, da participação dos trabalhadores nos lucros, da oportunidade dos mesmos construírem um patrimônio com o excedente de seu salário. Nestas Encíclicas, também, a Igreja posicionava-se em favor da intervenção do Estado no controle dessas relações.
Por que estou falando isso? Porque é nesse movimento da Igreja, nesta proposta, que foi se engendrando o Serviço Social, como um novo tipo de profissão que iria fazer frente àquelas situações concretas, que iria ser (eu sempre brinco com essa figura) “o braço armado da Igreja” para a implementação de sua doutrina.
É essa a perspectiva do meu olhar para a gênese do serviço social: em seu nascedouro esta profissão teve um componente eminentemente político, foi fruto de uma proposta política. Foi uma proposta política que, como qualquer outra, desenvolveu estratégias para sua implementação.
Na Europa, há dois anos atrás, foram festejados os 100 anos do Serviço Social. Nós tivemos 30 anos de defasagem em relação à Europa e, aproximadamente, 20 anos em relação aos Estados Unidos. Esta diferença de tempo histórico, eu atribuo ao atraso na penetração do capitalismo nas relações brasileiras. No Brasil, a sociedade e, em decorrência, a Igreja, começam sentir a necessidade de um posicionamento face à questão social com um atraso de 20, 30 anos em relação aos países europeus e aos Estados Unidos.
Quando esta preocupação chegou ao Brasil, já havia uma industrialização incipiente, já estavam postos os espaços onde se faziam ouvir os reclamos dos trabalhadores nas greves e nos movimentos anarquistas, comunistas e socialistas que formavam seus quadros e estavam se firmando como grupos (partidos) que tinham propostas alternativas de relações de sociedade.
Face à esse novo quadro, a Igreja, no Brasil, se mobilizou e desenvolveu as estratégias já seguidas em território europeu, para implementação, divulgação e construção da sua proposta política, estruturada como uma doutrina: a Doutrina Social da Igreja.
A estratégia desenvolvida no Brasil se apoiou em um tripé. Um de seus pilares era formado pela mais evidente estratégia assumida pela Igreja - o envolvimento do laicato (dos leigos) nesta ação, principalmente o laicato jovem - foi criado, na década de 1920, o movimento de Ação Social Católica, que coordenava agrupamentos de leigos militantes por categorias: a Juventude Universitária Católica - JUC, a Juventude Estudantil Católica - JEC (dos estudantes secundaristas), a Juventude Independente Católica - JIC, a Juventude Operária Católica - JOC. Além desses agrupamentos, havia os movimentos operários coordenados pela Igreja, os Centros ou Círculos Operários que funcionavam nos bairros e cidades industrializadas. O segundo pilar foi o investimento na formação de quadros, na construção de uma intelectualidade católica, capitaneado por Dom Sebastião Leme, com a criação do Centro Dom Vital, da revista Ordem e da implantação do Instituto Superior de Estudos Católicos no Rio de Janeiro, precursor das Universidades Católicas que passaram a ser criadas em quase todos os estados brasileiros, com formação fortemente doutrinária. O terceiro pilar desse tripé foi a conquista de um partido político: naquela época já existia um partido católico o Partido Democrata Cristão - PDC, que estava nas mãos dos integralistas católicos. Um grupo ligado à ação católica, que era a vanguarda da Igreja (do qual faziam parte os assistentes sociais José Pinheiro Cortez e Helena Iraci Junqueira) se organizou e tomou a direção do partido.
Com isso, eu estou querendo mostrar o quanto este não foi um movimento de cunho eminentemente assistencial, como se costuma ouvir falar quando se trata das origens do Serviço Social brasileiro. Ele foi parte de um movimento político, doutrinário, mobilizado para fazer uma intervenção que tinha por objeto a questão social.
Eu ia fazer meu pós-doutorado com o Michael Löwy, na França, sobre o Serviço Social. Minha tese é que a visão de mundo anti-capitalista romântica poderia ser uma categoria explicativa que permitiria compreender essa nossa profissão desde os seus primórdios até hoje. Neste estudo o serviço social seria visto, como qualquer outra profissão, a partir de sua estruturação histórica. Essa estruturação é composta por vários elementos – ideologia, teoria, ciência, método, objeto, especificidades, conhecimentos, instrumentais, procedimentos, normas – que se relacionam e dão unidade a essa estrutura. Esses elementos estruturais se consolidam, se modificam, são eliminados, são substituídos por outros, em uma dinâmica regida por determinações externas (sócio-históricas) e determinações internas (conjunturais), o que não significa que não permaneçam  “impurezas” e “sobrevivências” dessas transições.
Neste momento, eu me lembro da tese de doutorado da Lídia[5], que teve como idéia básica para o título de um de seus capítulos (que tratava da transição do doutrinarismo para o primeiro momento do marxismo no Serviço Social) uma afirmação bem significativa para exemplificar o que estou dizendo: Saiu dos braços de Jesus, e caiu nos braços de Marx. A ideologia permaneceu doutrinária, mas o seu conteúdo, que em seus primórdios era católico, transmudou com a incorporação acrítica das idéias de intérpretes de Marx. Outra idéia significativa da tese da Lídia, que mostra bem esse movimento foi: Deixou de preocupar-se com o pecado original e passou a preocupar-se com o pecado de classe. Com estes exemplos eu estou querendo mostrar que os elementos estruturais eram os mesmos, os conteúdos é que mudaram nesses momentos da nossa história.
Portanto, quando eu discuti com o Michael Löwy sobre qual seria a minha tese para o pós-doutorado, levei por proposta a afirmação de que o serviço social, desde o seu nascedouro tem uma característica que é de luta e, essa luta tem uma bandeira, que é o anti-capitalismo romântico - essa é uma luta com fundamento utópico: o desejo de uma relação de sociedade ainda não alcançada. Eu defendo que esta utopia (tendo como fundamento um tipo diferente de relação) já estava presente entre os pioneiros do serviço social, quando eles pugnavam pelo humanismo cristão. Tanto isso é verdade que eles não só tomaram partido político como fizeram deputados, vereadores, e dirigentes executivos (prefeitos, governadores). E, nas salas da Escola de Serviço Social da Rua Sabará, foram discutidas muitas propostas de projetos de lei apresentados na época, como, por exemplo, do salário mínimo e do salário-família. Era um grupo formado por André Franco Montoro, José Pinheiro Cortez, Helena Iraci Junqueira, Susana Medeiros e outros, que discutiam, no contexto das idéias da democracia cristã. Helena Iraci Junqueira foi a primeira vereadora mulher da cidade de São Paulo (tanto que ela brincava que o primeiro  banheiro feminino na Câmara só foi construído depois que ela foi eleita).
Essa é uma característica que quase não se vê analisada quando se pretende recuperar a história do Serviço Social. Este grupo pioneiro foi um grupo extremamente lutador: eles conseguiram em pouco tempo a legislação que legitimava a profissão, antes de muitas outras profissões. Eles conseguiram também montar, em meados da década de 1940, uma organização que agrupava as unidades de ensino do Serviço Social, a ABESS- Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social, com o objetivo de possibilitar a troca de experiências e o progresso do ensino. São muito poucas as profissões que contam no Brasil com esse tipo de organização e, mesmo na nossa profissão são poucas essas organizações no exterior. Por exemplo, em Portugal, há uma grande preocupação porque estão proliferando enormemente os cursos de Serviço Social e a associação de escolas deles ainda é muito nova, não tendo ainda conseguido consolidar-se. Aqui, a associação de escolas de Serviço Social que temos, é responsável pelas diretrizes do ensino da profissão, o que permite que ela tenha uma certa unidade em todo país: uma unidade na diversidade. Não quero dizer com isso que o Serviço Social seja homogêneo no Brasil, mas que tem elementos comuns em todo o território nacional: é uma única profissão, num país do tamanho do nosso!
Existiram muitos movimentos marcantes deste grupo pioneiros, ao qual nós devemos muito. Nós passamos por momentos da história brasileira em que os/as pioneiras(os) tiveram papel importante. Se vocês se lembrarem que uma das pioneiras, da primeira turma de Serviço Social, Nadir Gouvea Kfouri, foi a reitora da PUC de São Paulo que, tendo sido indicada pelo cardeal, instituiu a democracia e o voto direto para a reitoria da Universidade, e quando ela instituiu isso, ela foi a primeira reitora eleita e só não se reelegeu outras vezes porque o estatuto não permitia e porque ela se afastou da universidade por aposentadoria.
Só vou relatar mais um fato relacionado à execução desta proposta política. Nos primeiros anos do Serviço Social, ainda na década de 30, o Dr. José Pinheiro Cortez (que não tem qualquer parentesco com o Cortez da editora) estava fazendo a faculdade de Direito, do Lago São Francisco (atualmente, incorporada à USP) e era também militante da JUC - Juventude Universitária Católica (O Dr. Cortez era uma pessoa muito religiosa – ele, uma vez, brincou comigo dizendo que só não era franciscano porque se apaixonara pela mulher com quem se casou, mas ele estava se encaminhando para ser franciscano. Os franciscanos têm voto de pobreza – este voto de pobreza que ele cumpriu pela vida inteira). Enquanto participante da JUC, ele foi chamado pelo mentor espiritual de seu grupo, que lhe disse: Você tem uma missão: nós estamos precisando de uma escola masculina de Serviço Social e é você quem vai criar – isto significa que ele não criou a nova escola porque quis, mas por imposição da Igreja da qual ele fazia parte. O seu mentor determinara: Você vai fazer o curso  de Serviço Social para poder criar uma escola masculina, que dará bolsas de estudo para operários. Porque nós precisamos disseminar a doutrina entre o operariado. Foi, então, criada uma escola masculina que inicialmente se chamou Instituto de Serviço Social de São Paulo (que, quando eu fazia meu curso na Sabará, funcionava no edifício  Martinelli) e hoje em dia é a Escola Paulista de Serviço Social. Em seguida à sua criação em São Paulo, foi criado um campus no ABC, em São Caetano, justamente para cumprir esse objetivo de formação de operários assistentes sociais.  É por isso que eu brinco - mas não é muito brincadeira - que o Serviço Social tinha esse papel de “braço armado da Igreja” – era aquele que chegava perto da população, junto ao operariado, para fazer a disseminação da doutrina, da proposta política, social e ideológica da Igreja.
Eu acho que esse olhar, esta perspectiva do Serviço Social, é bastante importante para compreender sua história. Em geral, quando se fala da história do Serviço Social, fala-se do seu lado assistencial. Este lado assistencial já existia naquela época, mas não era a sua ‘mola mestra’, o seu eixo era a proposta política de enfrentamento da questão social.
 Um outro aspecto que eu gostaria de ressaltar deste momento inicial da profissão – do qual sou grande admiradora - é o método. Aquela divisão de métodos de caso, de grupo e de comunidade que nós mais conhecemos, não era o que havia nos primórdios do Serviço Social – só passou a ser adotada depois que o país estabeleceu uma relação Brasil–Estados Unidos, que incluía no Ponto 4 do acordo, a facilitação de ida de bolsistas para formação nos Estados Unidos - foi quando um grupo de professores das Escolas de Serviço Social brasileiras, trouxe essa metodologia. Mas até essa época, o método de intervenção do Serviço Social era o adotado pela Ação Católica e se estruturava a partir de círculos de estudos.
Eu estudei nessa época, quando o curso era de tempo integral. Nos círculos de estudos procurava-se saber o que estava acontecendo, como estava acontecendo, quem fazia e o que estava sendo feito – era o ‘ver’. Em seguida, vinha o ‘julgar’ - quando eu comecei a estudar planejamento, eu pensei: Será que esse julgar significa fazer um diagnóstico? Não era a mesma coisa: era um julgamento ético-moral, norteado pela ética da Igreja. Não era a moral que se pergunta “casou ou não casou? está dormindo com quem?”, não era nessa linha da moral, era uma moral com base em uma ética doutrinária. Fazia-se um julgamento ético-moral a respeito de cada questão que entrava em pauta. Eram discussões aprofundadas, por isso precisava-se de período integral. Depois, vinha o ‘agir’o que vamos fazer face a isso? Qual a nossa responsabilidade face ao que está acontecendo? Nós nos acostumávamos, então, a assumir responsabilidades face às coisas que aconteciam na comunidade, na cidade, no país, no mundo. Nós éramos cobrados disso a toda hora, pelo menos duas vezes por semana, nos círculos de estudos.
A base - a formação ética e moral - nesses cursos pioneiros era forte. Nós tínhamos três disciplinas do curso de Serviço Social que tratavam disso: ética, ética profissional e Doutrina Social da Igreja. E essa ética era vivida cotidianamente: ninguém cuidava das provas, porque você tinha que desenvolver a sua responsabilidade ética em relação a sua formação. E era muito pesado - eu tive colegas que saíram (não foram mandadas embora) porque não agüentaram o peso de ter colado em uma prova - dizia-se que se estava preparando uma elite, eticamente bem formada, para implementação da doutrina. Você tinha uma responsabilidade, e a pessoa fazia o ‘mea culpa’ - eu não sirvo, eu não agüento - e saía. Hoje em dia parece um absurdo, ou bobagem mas, na verdade, nós tínhamos esse tipo de pensamento impregnado, ficávamos o dia inteiro alí, recebendo essa formação.
Uma outra coisa também era a nota, principalmente a do trabalho prático (eu estou dando esses exemplos porque acho que são interessantes e, como isto não está escrito em nenhum lugar, vocês estão tendo um depoimento de quem viveu essa experiência). Nós tínhamos estágio desde o início do curso. Ao final do semestre a supervisora (a minha era a Antonieta Guerrero) e a aluna sentavam frente a frente e ela falava: “Pense no que você fez, que nota você se dá?”. Você é que dava a sua nota - mas antes tinha que fazer um exame de consciência.
Por que eu estou falando isso tudo aqui? Para recuperar uma face do Serviço Social que é muito pouco explorada, que é essa face da luta, do compromisso e da ética, que acompanhou o Serviço Social desde o seu início. Era um outro momento da história, um outro momento do Brasil: não tínhamos televisão para ficarmos sabendo das coisas que estavam acontecendo e tínhamos outra maneira de lidar com as questões.
Essa era a primeira parte do que eu estava querendo falar. Nesta outra parte, eu quero contar a respeito da minha participação na história desta Universidade.
Quando eu me formei, eu casei. Uma das exigências do meu marido para casar comigo foi a entrega do Trabalhou de Conclusão do Curso – TCC: se eu não entregasse o TCC, ele não casava, nem preciso dizer que eu fiz o TCC rapidamente. Tanto é que eu fiz bodas de ouro e jubileu de ouro de formada ao mesmo tempo.
Bem, o meu marido é engenheiro construtor de estradas e, na década de 1960 nós viemos para o Paraná para a construção da Rodovia do Café, que liga o norte do Paraná com o porto de Paranaguá. Primeiro eu fui morar em Ponta Grossa, porque estava sendo feito aquele trecho da estrada. Quando nós tivemos que mudar para Londrina, para fazer este outro trecho, estávamos em março, nos finais das chuvas, quase à entrada do outono... Quando viemos, tinha havido um “chuvão”, e como não havia estrada asfaltada, o caminho estava intransitável. Para chegarmos em Londrina o caminhão da mudança teve que ir para São Paulo e entrar no Paraná por Jacarezinho - porque o norte do Paraná era ligado por rodovia asfaltada a São Paulo e, conseqüentemente, ao porto de Santos. Todo escoamento da produção do norte do Paraná se fazia pelo porto de Santos. O governador do Paraná, na época, Ney Braga, assumiu como uma das primeiras medidas, o projeto da Rodovia do Café. Nós viemos para cá por causa dela - eu morei um ano em Ponta Grossa e, depois, vim para Londrina.
Eu era assistente social, tinha quatro filhos pequenos (em seis anos eu tive quatro filhos e doze mudanças, porque como meu marido construía estrada, eu ia para onde não tinha estrada e, quando a estrada era construída eu mudava para onde não tinha...) Eu vim com a criançada - eu não estava trabalhando em Serviço Social: fiquei dez anos longe do trabalho externo, trabalhando muito, mas dentro de casa. Tinha uma prima do meu marido que estudava no colégio Mãe de Deus, onde era realizado um trabalho social. Naquela época, em Londrina, não havia favelas. Havia um lugar onde algumas pessoas construíram suas casas - era onde os proprietários, japoneses, tinham sido mortos no final da guerra, por seus compatriotas – era uma invasão porque aquelas terras não tinham mais dono. Eu não sei mais onde fica: já se passaram muitos anos. Nessa invasão era realizado um trabalho das alunas do Colégio Mãe de Deus. As freiras ficaram sabendo que a prima de uma delas era assistente social e me chamaram para dar uma força lá, fazer uma supervisão do trabalho que realizavam.
Eu comecei a fazer essa orientação e um dia Dom Geraldo, que era o bispo de Londrina, me chamou e disse que queria fazer uma escola de Serviço Social na cidade. Convidou-me, então para organizá-la. Eu achava muito difícil porque só havia duas assistentes sociais em Londrina, eu e a assistente social do SESC. E me perguntei: Com que base eu vou criar uma escola de Serviço Social com apenas dois profissionais da área na cidade? Neste mesmo dia, eu fui chamada pelo pessoal do Colégio Londrinense porque eles também queriam uma escola de Serviço Social - os protestantes também queriam uma escola de Serviço Social. Eu senti que era uma coisa que estava no ar - ou um ficou sabendo da idéia do outro, não sei. E eu pensei: Se estão querendo tanto uma escola de serviço social é porque existe um espaço para essa profissão em Londrina.
Neste momento eu vou fazer um outro parêntesis: eu era “peixinho” da escola de Serviço Social de São Paulo, “queridinha da escola”, porque casei com o sobrinho da bibliotecária, que era de uma das primeiras turmas, a Margarida Pizante, que é uma pessoa estimadíssima lá. Como eu era sobrinha dela, por procuração, eu tinha vantagens de relacionamento naquela escola. Então, pensei: Eu vou lá, ver se eles me apóiam para abrir essa escola. Eu fui. Fui recebida por Dna. Helena Junqueira e Dna. Nadir Kfouri - que foram minhas professoras e eram minhas amigas. Elas tiraram da minha cabeça: disseram que era uma loucura, que eu não deveria nem pensar nisso (elas sempre foram contra a proliferação de escolas - desde o Instituto de Serviço Social – porque queriam garantir a qualidade doutrinária da formação).
Bem, se eu não podia contar com elas, eu estava disposta a desistir da idéia. Aí, eu desci e fui falar com a minha tia Margarida. A Margarida me vira chegar e estava querendo saber o que eu tinha ido fazer lá, e eu contei toda a história para ela. Sentado na mesa de leitura da biblioteca, estava o Dr. Cortez, que ouviu tudo. Quando eu acabei de contar para Margarida, o Cortez falou: Eu ‘topo’. Ele já havia criado a escola masculina, que nessa época já não era mais exclusivamente masculina, já era mista - mas sempre foi uma escola que teve um contingente maior masculino do que feminino.
O Cortez sentia que tinha possibilidade de apoiar esse projeto: ele era um sonhador que sonhava sonhos possíveis, não era um sonhador de sonhos impossíveis. Ele era também uma pessoa que se entregava por inteiro. E, como ele tinha voto de pobreza, não esperava retribuição econômica das coisas que fazia, ele se dedicava por convicção.
Por essa época, o Dr. Cortez era o Secretário Geral do Partido Democrata Cristão (mantinha-se nesse cargo desde aqueles primórdios, quando eles tomaram o partido) e o governador Ney Braga fora eleito por esse Partido. Então, o Dr. Cortez disse que poderíamos fazer um projeto amplo porque havia possibilidades objetivas para que ele transitasse favoravelmente no governo do Estado. Eu então perguntei:Mas isso não é uma loucura? Só existem duas assistentes sociais em Londrina, como nós vamos criar uma escola? O Dr. Cortez, então, explicou-me que a criação de uma escola de Serviço Social só teria sentido como resultado de um movimento maior - que seria um movimento no sentido do desenvolvimento macroregional do norte do Paraná – que incluía o norte velho, o norte novo e o norte novíssimo - este movimento traria não só mais profissionais, mas também a necessidade de novos profissionais e de criação de um centro de formação de profissionais que movimentassem isso, eram os assistentes sociais: cabia então uma escola de Serviço Social para formar pessoas para essa mobilização. Nós estávamos no momento do desenvolvimentismo: a minha tese de doutorado é sobre isso: Desenvolvimento de Comunidade como nível do sistema de desenvolvimento.
O Dr. Cortez foi, então, conversar com o governador Ney Braga que designou o Dr.Adail Spengler Passos, que era Secretário de Governo, para acompanhar o planejamento e a execução desse processo de desenvolvimento macro regional e, no bojo desse projeto iria precisar de profissionais.
Como eu morava em Londrina, a minha contribuição inicial para a realização desse projeto foi disponibilizar meu apartamento para hospedagem da equipe: Maria Inês Bernardes Pinto, Dr. José Pinheiro Cortez e a Maria Luísa Heder.
Então, nós começamos a nossa peregrinação pelo norte do Paraná: falávamos com os prefeitos, com as organizações, os sindicatos... fazíamos reuniões enormes, em cinemas. Juntávamos um monte de gente para fazer o diagnóstico macro regional, o diagnóstico desta região inteira, com o apoio do governo do Estado.
Nós estávamos mergulhados em um processo grande de mobilização, quando, em pleno entusiasmo, fomos surpreendidos pelo golpe militar de 1964. Então, o Dr. Cortez recebeu um telefonema do Ney Braga dizendo: Pare com tudo, porque agora não dá pra fazer mobilização de massa. E, aí, nós paramos, mas nesse processo nós já havíamos entrado com o pedido para a criação da escola de Serviço Social no MEC.
O primeiro governo militar proibiu a criação de alguns novos cursos, incluindo o de Serviço Social. Quando foi criada a UEL, eles descobriram o processo que autorizava a criação de uma faculdade de Serviço Social em Londrina, e isto tornou possível a abertura do curso. Foi o único curso de Serviço Social que pode ser aberto naquela época, isto porque já tinha um processo anterior aprovado. Não fomos nem nós que descobrimos, nem que dissemos que tinha, eles descobriram no MEC esse processo, e como era o processo para uma faculdade em Londrina, ela pode acontecer.
Aí tem outra história engraçada. Nesse meio tempo, eu morei 10 anos em Curitiba, e depois nós voltamos para São Paulo, e eu fui trabalhar na Secretaria da Assistência Social da Prefeitura de São Paulo. Um dia eu recebi um telefonema da Profª Odária: a primeira turma ia se formar e ela me convidou para vir para a formatura desta turma. Aí, eu me preparei para contar esta história que acabei de contar para vocês, e vim. Quando eu cheguei, o aeroporto estava cheio de gente e estavam também os dois canais de televisão, e eu pensei: Deve ter alguém importante chegando aí. Mas, quando vi, a pessoa que eles estavam esperando era eu. Foi nesse dia que eu fiquei sabendo da ligação da minha antiga história, com a história do curso de Serviço Social da UEL. Houve uma homenagem para mim contando essa história, contando aquele movimento que havíamos vivido. Eu pedi para a Odária: Tente localizar esse discurso que conta essa história, porque quem tinha mais detalhes era o Doutor Cortez e ele já morreu.
Ela tem essa história. Houve a preocupação de documentar essa história por uma das professoras daqui, mas foi uma professora que ficou doente e não completou a dissertação de mestrado. Ela recolheu muito material sobre isto, porque entrevistou o Cortez, a Maria Inês Bernardes... É por isso que eu me sinto um pouco daqui, da UEL. Eu sinto que faço, um pouco, parte dessa comunidade de vocês.
Era mais ou menos isso que eu estava pensando em contar, numa conversa descontraída - não pensei na formalidade, mas foi um prazer ter esta oportunidade. Eu também quero dizer que foi gostoso poder falar aqui. Quero dizer também que eu conto essa história, do início do Serviço Social, porque eu me sinto comprometida com as pioneiras. Elas se sentiram magoadas com a história que vinha sendo contada do Serviço Social, então, eu assumi o compromisso de levar também o meu olhar. Foi também por isso que criei o Núcleo de História do Serviço Social na PUC de São Paulo. O Dr. Cortez participou todo o tempo em que esse Núcleo funcionou. Desse Núcleo saiu a tese de doutorado da Lídia, a tese de doutorado do José Paulo Netto, da Maria Raquel Tolosa Jorge, entre tantas outras. Saíram várias teses de doutorado sobre a história do Serviço Social nas várias regiões de São Paulo, sob diversos ângulos...
Mas, ainda está faltando aquele momento em que se pega tudo o que foi produzido e se reconstrói a unidade da história da profissão. Eu vou deixar esse desafio para vocês. Obrigada



[1] Palestra proferida no evento “70 anos de Serviço Social no Brasil”, realizado em 24 de outubro de 2006 e promovido pelo Curso de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina – PR.
[2] A palestrante se refere à Profª Silvia Alapanian
[3] A palestrante se refere à Profª Lídia Maria Monteiro Rodrigues da Silva
[4] A palestrante se refere à Profª Odária Battini
[5] A palestrante se refere ao trabalho intitulado “Aproximação do Serviço Social à Tradição Marxista: Caminhos e Descaminhos”, Tese de Doutoramento em Serviço Social da Professora Doutora Lídia Maria Monteiro Rodrigues da Silva, PUC/SP, 1991.