quinta-feira, maio 03, 2007

Serviço Social Dossier Madeira Pobreza

Ficam as palavras de quem se dedica a ajudar as mulheres prostituídas, numa entrevista ao «Fura Bardos». Com desassombro, próprio de quem toma partido, se dedica de corpo e alma a um projecto e vive um sonho: acabar com a prostituição. É possível. Palavra de Inês. No final do ano passado, viu finalmente o trabalho reconhecido.

Foi considerada a mulher do ano 2005 pela revista «Visão», pelos jornalistas do Diário de Notícias do Funchal e pela TSF/Madeira. Foi nomeada o ao passado para o prémio Novel da Paz. Inês Fontinha é madeirense, natural do Arco da Calheta e actualmente dirige «O Ninho», uma associação que ajuda «mulheres prostituídas», uma expressão preferível a «prostitutas», pois, no primeiro caso, coloca a tónica na vítima da prostituição que é sempre a mulher. Fontinha recebeu também no dia 10 de Dezembro passado, dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos, outro prémio das mãos do Presidente da República. Um galardão atribuído pela Ordem dos Advogados que considerou «O Ninho», a instituição que, em Portugal, melhor defendeu os direitos humanos. Prémios que Inês Fontinha considera importantes, pois, dão visibilidade à instituição que preside e «ajudam a consciencializar para um problema complexo como é a prostituição».

É possível acabar com a prostituição

Inês Fontinha persegue um sonho, «acabar com a prostituição, uma violação grave dos direitos humanos». Mas reconhece que é um fenómeno que está a aumentar em todo o país. A pobreza é a principal causa. Prostituição que não é a mais velha profissão do mundo como tantas vezes ouvimos dizer. «Nem sequer é profissão quanto mais a mais velha profissão do mundo», enfatiza. É fundamentalmente «um problema político».
Inês Fontinha insurge-se contra a sua legalização. «Não se pode legalizar uma violação grave dos direito humanos, uma realidade que atenta contra a dignidade humana». A socióloga dá o exemplo do que se passou na Alemanha, onde a prostituição está legalizada. Uma rapariga ficou sem o subsídio de desemprego porque se recusou a aceitar um «emprego» para se prostituir, um caso muito badalado na altura.

Segundo a ONU, em todo o mundo, são traficadas 4 milhões de mulheres por ano. «É um negócio mais rentável do que a droga e rivaliza com o comércio de armas». A dirigente madeirense lamenta que «nos programas eleitorais, nenhum partido fale da prostituição». Um problema que atinge sobretudo mulheres, as principais vítimas. Assiste-se a «uma desresponsabilização do homem. Elas têm filhos, eles não» (mesmo que seja o pai). Além disso, acrescenta, «o poder está no cliente». Veja-se o exemplo do preservativo. O cliente é que decide e até paga mais, se for necessário, para não usá-lo. Inês Fontinha que também faz trabalho de rua, cita uma mulher prostituída: «O cliente quer que estejamos limpas para não contaminá-lo, mas nenhum cliente se preocupa em estar limpo para não nos contaminar».

Turismo Sexual

A candidata ao prémio Nobel da Paz esteve recentemente no Funchal apara apresentar o livro «Os Instrangeiros na Madeira» da autoria de Edgar Silva. É a primeira vez que o faz. Mas «não podia recusar, pois, trata-se duma análise à pobreza e exclusão, situações que ferem a dignidade humana». Inês Fontinha gostou imenso da obra, «é um estudo honesto, um olhar atento e com indicadores sociais muito interessantes. Há, na realidade, pobreza na Madeira, por muito que se queira escamotear, por muito que se queira dizer que a Madeira é uma ilha de sucesso. É claro que se fizeram obras, é claro que houve desenvolvimento. Mas é preciso conhecer um pouco de história. A Madeira até há bem pouco tempo foi desprezada pelo poder político central. Quando vinha do continente para a Madeira, recorda Inês, tinha de passar pela PIDE (polícia política do antigo regime), parece que a Madeira não fazia parte de Portugal. Com o 25 de Abril e com os fundos da Europa houve a possibilidade de um crescimento, de construção de infra-estruturas que estão à vista. Cá como também no continente. Naturalmente que ninguém diz que não é importante».
Mas há o reverso da medalha. «A Madeira é uma ilha turística, vive fundamentalmente do turismo. E há viagens turísticas para a Madeira para a exploração sexual de pessoas. Há prostituição porque no turismo e, isto está estudado, nem sequer sou eu que afirmo, há investigadores que o dizem, há o turismo sexual. Um turismo para prostituir jovens que estão em situação vulnerável, em situação de pobreza», denuncia a socióloga. «Temos de dizer as coisas e ter a coragem de o assumir para podermos inverter esta situação, de ter uma ilha que é lindíssima, sem dúvida, mas que está virada apenas para as pessoas que têm poder económico. E isto é uma realidade que está a ser estudada. O Bruto da Costa tem isto documentado lindamente. Se não invertermos a política que está a ser seguida, daqui a algum tempo nós que hoje vivemos bem (e ele dizia isto há dez anos) podemos vir a engrossar o grupo dos pobres. E se formos a ver nós já estamos quase nesse limiar. Porque mesmo uma licenciada da função pública que ganhe um vencimento compatível com a sua formação, para pagar casa, se tiver um filho e não tiver um marido que partilhe as despesas tem muita dificuldade, vai ter de contar o dinheiro para chegar ao fim do mês. Agora imaginemos o que se passa com pessoas que ganham o ordenado mínimo, para não falar dos reformados que têm 150€ por mês. O que é isto para se viver? São os novos pobres como chama o Bruto da Costa. E há os pobres de pobreza extrema, os que estão desempregados e que vivem à margem. Mas os que trabalham também são pobres.
Outra coisa interessante que o Bruto da Costa também se refere, é as pessoas se sentirem pobres, sentirem que não têm o dinheiro suficiente para fazer face a despesas básicas que lhe são exigidas. Toda esta situação tem de ser olhada de forma a termos uma intervenção coerente e correcta em relação aos mas desfavorecidos e os que estão em maior dificuldade. Ficar calado é cobardia quando se tem conhecimento da realidade. E a indiferença mata, de modo que não podemos ficar indiferentes. Temos que tomar partido temos que dizer e chamar as coisas pelos seus nomes, não escamoteá-las, não escondê-las. Existem, vamos tentar resolver, vamos em conjunto ver como é que podemos ultrapassar a situação. É este o fundamento da democracia e a democracia participada não existe».
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Ainda temos muitos pobres na Madeira

A pobreza na Madeira poderá afectar mais de cinquenta mil indivíduos. Isto apesar de o último estudo ao nível nacional datar de 1991 e ter tido por objectivo a análise da realidade da pobreza em Portugal não contemplando a Madeira. Contudo, os últimos dados da União Europeia e do Eurostat revela que Portugal tem cerca de 22% de pobres.
O presidente do Conselho Directivo do Centro de Segurança Social da Madeira, Roque Martins, diz que a Região tem alguns indicadores quantitativos que permite traçar um perfil da dimensão do trabalho desenvolvido a este nível, já que a Segurança Social acompanha um total de 20.883 famílias, o que corresponde a 62.649 indivíduos, ou seja, 25,56% da população residente na Região segundo o Censos de 2001.

Um estudo da CDU, elaborado com contributos de peritos sobre as questões da pobreza e exclusão social, estimava que 23% da população vivia em situação de pobreza, o que totaliza 53.600 pobres.

A CDU quer que a Assembleia Legislativa Regional realize um estudo sobre a pobreza infantil na Região. Segundo Edgar Silva, as razões para esta iniciativa são, em primeiro lugar, porque esse estudo não está feito na Madeira.
Roque Martins contrapõe e garante que «a Região está incluída num estudo que está a decorrer sob a orientação de Alfredo Bruto da Costa». Este responsável aguarda os resultados que traduzem o perfil da pobreza no território nacional. Está, ainda, prevista a realização de um inquérito às condições de vida e rendimentos, incluído no projecto comunitário Eurostat, a realizar em Portugal pelo INE, onde a Região já se encontra incluída. O objectivo é produzir informação comparável sobre o rendimento e sobre o nível da composição da pobreza e exclusão social tanto nacional como europeu.

Roque Martins acrescenta, ainda, que «a pobreza infantil na Região está associada às famílias mais carenciadas que recorrem à Segurança Social, pelo que estão identificadas e são acompanhadas através dos serviços de acção social».
O presidente do Conselho Directivo do Centro de Segurança Social da Madeira diz que os seus serviços trabalham em rede com a Educação, a Educação Especial, as comissões de protecção de crianças e jovens, tribunais, saúde, PSP e outros. Tudo isto com o objectivo de identificar e eliminar os focos de risco e criadores de exclusão social das populações mais carenciadas.
Edgar Silva diz que está a haver uma diminuição do chamado Estado social nos últimos anos. «O Estado tem vindo a prescindir das suas funções sociais, a diminuir os seus deveres na área social para com os cidadãos», diz o deputado.

Outro conceito – zonas de especial gravidade social – está associado a parcelas do território que a partir dos dados oficiais divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) são classificadas a partir do índice de poder de compra que anualmente o INE divulga.
Todos os concelhos cujo índice de rendimento "per capita" regista um índice de poder de compra inferior a 50% da média nacional são concelhos deprimidos e de especial gravidade social. Também há aqueles que estão abaixo de 75% da média nacional.

A tabela do INE de 2004 dá como áreas deprimidas – aquelas que estão abaixo dos 50% da média nacional – os concelhos de Câmara de Lobos – com 44,35% – e Santana (45,22%).
Roque Martins afirma que «há que lutar para uma maior coesão social, por isso importa conseguir uma maior distribuição de empregos a favor das zonas menos prósperas da Região e melhorar o potencial humano, através da formação e qualificação».
Segundo este responsável, o Governo Regional está a trabalhar no objectivo que comporta a criação de um padrão básico de inclusão social, em contraponto a um limiar de sobrevivência «o que só por si representa uma autêntica revolução na consciência da cidadania», completa o presidente do Conselho Directivo do Centro de Segurança Social da Madeira.
O que significa ser pobre?
É necessário definir o conceito de pobre. Segundo a definição da União Europeia, pobre é aquele que tem um rendimento inferior a 60% do rendimento médio de um país ou de uma região. A pobreza é calculada pelo rendimento familiar dos indivíduos.
Da problemática em discussão, o que a CDU e Edgar Silva pretendem inferir é de que forma este número de pobres se reflecte sobre as crianças. É que o deputado lembra que «o bem-estar psicológico é importante e a delinquência juvenil é um problema associado à pobreza, assim como a inadaptação social».
O responsável pelo Centro de Segurança Social da Madeira, Roque Martins, destacou à nossa reportagem que «as dificuldades que carecem de ser tratadas ao nível do indivíduo mais não são do que as consequências da pobreza e da exclusão que são relevantes na pobreza de longa duração». Estas consequências, segundo o nosso interlocutor, são a toxicodependência, o alcoolismo e as doenças mentais ou do foro psíquico.

Roque Martins admite, também, que são situações que encerram uma enorme complexidade que pode, inclusive, neutralizar a eficácia de quem tenta resolver os problemas e que «caracterizam-se pelo peso de uma inércia capaz de contrariar tudo quanto se possa fazer».
Este responsável tem a consciência de que é necessário enfrentar essas situações e que isso passa por medidas de política social.
Plano Integrado
A CDU tem um projecto de resolução em debate no Parlamento Regional que visa a elaboração de um Plano Integrado de Desenvolvimento para as Áreas de Especial Gravidade Social.
Edgar Silva explica que o objectivo fundamental deste projecto de resolução é requerer da parte do Governo um plano integrado de desenvolvimento, portanto, medidas de excepção especificamente direccionadas para as características daquelas comunidades que estão identificadas como áreas de especial gravidade social.
Conforme entende a CDU, estas áreas são zonas mais deprimidas do ponto de vista social, são zonas mais carenciadas que, devido aos problemas económicos e sociais, vivem uma desigualdade em relação a outras localidades.
Exclusão social
É preciso, também, distinguir a pobreza da exclusão social. Isto porque nem toda a pobreza corresponde à exclusão social, embora haja formas de pobreza que têm expressões de ruptura com os laços de integração social.
Edgar Silva dá o exemplo dos meios rurais, onde «todos sabem quem são os pobres e estes, apesar das dificuldades vividas, das grandes desvantagens, dos prejuízos e penalizações da pobreza, não deixam de estar integrados na comunidade».
O presidente do Conselho Directivo do Centro de Segurança Social da Madeira, Roque Martins, explica, por seu lado, que «a pobreza e a exclusão são fruto de uma lógica dos mecanismos económicos, sociais, culturais e políticos da sociedade».

Angélica Martins

Serviço Social Vicente de Paula Faleiros em Rondonopolis

segunda-feira, abril 30, 2007

Serviço Social O 1º de Maio

domingo, abril 29, 2007

Serviço Social Mais Uma vez Lembrar Guernica Apelo à Paz


Espanha: Apelos à paz no 70º aniversário de Guernica

O 70º aniversário do bombardeamento da localidade basca de Guernica pela aviação alemã ao serviço do general espanhol Franco tornou-se hoje num símbolo da paz, numa homenagem às vitimas da guerra e numa esperança de pacificação do País Basco.
Representantes de dezenas de organizações públicas e privadas, de cidades bombardeadas em vários conflitos, sobreviventes do ataque a Guernica e líderes políticos, concentraram-se na localidade para a leitura da declaração «Guernica pela Paz».
O texto, lido pelo presidente do governo basco Juan José Ibarretxe, traduz uma «aposta incondicional» no diálogo como único caminho para conseguir a paz, quer no País Basco quer em qualquer ponto do planeta.
Qualquer esforço de paz obriga ainda ao «respeito à diferença e à aceitação mútua» e ao «compromisso de todos» pelos esforços «diplomáticos» de «trazer a paz a Euskadi (País Basco) e a todo o mundo».
Entre os presentes estava Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz de 1980, que aproveitou a ocasião para emitir um apelo ao governo espanhol para que «continue, apesar de tudo, a procurar os caminhos da paz», através do diálogo, para o País Basco.
Esquivel, galardoado com o prémio «Guernica Pela Paz e Reconciliação», apelou ainda à ETA para que abandone a violência, afirmando que o diálogo é a «única forma» de «pôr fim à espiral de violência».
Um dos momentos mais emotivos das celebrações de hoje ficou a cargo de Luis Iriondo, um dos sobreviventes do ataque de há 70 anos, que recordou que Guernica sofreu já duas infâmias e uma injustiça.
Considerando o bombardeamento «um acto de terrorismo» contra a população civil, deixando intactos os objectivos militares, Iriondo lembrou que durante décadas os franquistas negaram que tenham estado por detrás da ordem do ataque.
Os sobreviventes do bombardeamento imortalizado numa das obras mais famosas de Picasso serão igualmente homenageados, recebendo o prémio internacional «Guernica pela Paz e pela Reconciliação».
Na tarde de 26 de Abril de 1937 - uma segunda-feira de mercado -, sem aviso prévio, a Legião Condor da aviação alemã, apoiada por aviões italianos, bombardeou a vila durante três horas, reduzindo a localidade praticamente a escombros.
O primeiro avião foi visto pouco depois das quatro da tarde e cerca de 15 minutos depois ocorreu a primeira onda de bombardeamento, em que foram usados aviões Heinkell 111 e Junker 52, de bombardeamento e Heinkel 51 de caça.
Até agora desconhece-se oficialmente o número de vítimas do ataque - que se estima entre 150 e 250, dependendo das fontes -, que serão recordados com uma oferta floral no cemitério de Guernica.
Centenas de pessoas ficaram feridas e mais de 70% dos edifícios da localidade ficaram destruídos.
Vários dos sobreviventes aceitaram nas últimas semanas conversar com a imprensa, com alguns a regressar pela primeira vez, em dezenas de anos, à localidade onde nasceram e viveram.
Destruída na guerra, a localidade é hoje vista como um símbolo da paz, cuja mensagem é, há duas décadas, transmitida para todo o mundo pela «Gernika Gogoratuz», uma organização que quer consolidar a paz na região, em Espanha e no mundo.
Ainda hoje se especula sobre as motivações do bombardeamento, desde vingança pela morte de um piloto a ensaios para o que seriam depois as acções da Segunda Guerra Mundial.
Diário Digital / Lusa
26-04-2007 18:07:00

sexta-feira, abril 27, 2007

Serviço Social e Direitos Humanos: Generais Criminosos da Argentina Serão Julgados

Argentina anula indultos aos antigos oficiais Videla e Massera
Muitos Assistentes Socias Argentinos desapareceram ou
Foram Assasinados durante este Período
Segundo Jornal Público de 27.04.2007

Os dois ex-membros da junta militar de Buenos Aires vão ter de cumprir as penas de prisão perpétua a que foram condenados por crimes contra os direitos humanos.
A justiça argentina anulou, por não respeitarem a Constituição, os indultos concedidos a dois dos principais responsáveis do regime militar de 1976-83, o ex-general Jorge Videla e o ex-almirante Emilio Massera. Mais de 30 mil pessoas morreram ou desapareceram durante a ditadura. A resolução, adoptada pela Câmara Criminal Federal, restaura automaticamente as penas de prisão perpétua a que um e outro foram condenados, em 1985, por delitos de lesa-humanidade cometidos no período em que estiveram no poder. Quer dizer, vão ter de as cumprir. Videla e Massera são os únicos sobreviventes dos cinco antigos ditadores agraciados. Roberto Viola, Armando Lambruschini e Ramon Agostino já faleceram. Outros antigos ditadores, como Leopoldo Galtiéri, foram levados perante a justiça, mas acabaram por sair em liberdade. Os dois antigos militares, bem como os que entretanto morreram, foram indultados no fim dos anos 80 pelo então Presidente Carlos Menem. Mas várias organizações de direitos humanos não renunciaram a vê-los cumprir as condenações, abrindo novos processos por factos que não foram alvo de indulto, como o rapto de bebés. Durante a ditadura, os militares argentinos sequestraram muitas grávidas, dando os filhos para adopção a outros militares ou civis amigos e matando as mães. Jorge Videla, 81 anos, está em residência vigiada à espera de ser julgado por esta nova acusação. Emilio Massera, da mesma idade, não será provavelmente julgado por ter sido vítima, em 2002, de uma hemorragia cerebral.
A decisão judicial está a ser vista na região como um progresso na política dos direitos humanos em que está empenhado o Governo do actual Presidente, Nestor Kirchner ,desde que chegou ao poder, em 2003, sublinhava ontem a AFP. O Supremo Tribunal já tinha derrogado, em 2005, as leis de amnistia de que beneficiavam os militares acusados de atentados aos direitos humanos, levando a que fossem reabertos uma série de processos. Durante a ditadura argentina, mais de 30 mil pessoas foram mortas ou desapareceram, muitas lançadas de avião, de noite, de mãos e pés atados, sobre o estuário do rio da Prata.
Pela nossa parte evidenciamos a lista de assistentes sociais vítimas da ditadura argentina que podem consultar in


quinta-feira, abril 26, 2007

Serviço Social e Ética:Princípios e Práticas - Em Casa de Ferreiro, Espeto de Pau?


SERVIÇO SOCIAL E ÉTICA: PRINCÍPIOS E PRÁTICAS
Em Casa de Ferreiro, Espeto de Pau?


Ernesto Fernandes*

Com o presente escrito pretende-se abordar a ética como dimensão fundante do Serviço Social, desde a sua institucionalização como formação-profissão até aos tempos de hoje. Entre desvios eticistas e tecno-cientistas, a filosofia dos valores e dos direitos humanos tem-se vindo a afirmar como imperativo e compromisso ético-político da intervenção. Trata-se de uma filosofia prática constituída como referente e quadro de avaliação das práticas. No quotidiano profissional, a exigência e o rigor obrigam, segundo o ditado popular, a perguntar: Em casa de ferreiro, espeto de pau? Elenca-se a este respeito situações de menosprezo ou negligência pelos valores da deontologia profissional. Defende-se a construção de uma ética básica e transversal a todos os profissionais da intervenção social profissional. Reflecte-se, ainda, sobre o confronto entre a ética liberal (humanismo abstracto ou essencialista) e a ética emancipatória ou da solidariedade. Por fim, esclarece-se a dialéctica e o conflito entre Deontologia Profissional (valores ou deveres éticos) e Código Deontológico (normas ou preceitos éticos).


1. Trajectória do Serviço Social: ciência, ética e estética em jogo desigual

O Serviço Social institucionaliza-se como profissão a partir do último quartel do século XIX, em sociedades de transição para o capitalismo monopolista e de emergência do Estado Social. Inserido no campo das políticas sociais, o Social Work tem por finalidade satisfazer necessidades de subsistência/materiais e/ou problemas sociais dos mais pobres das classes trabalhadoras. Uma prática profissional virada para o mal-estar, socialmente produzido pelo conflito estrutural entre capital e trabalho (Cf. Netto, 1992).
Segundo a tradição anglo-saxónica, o Trabalho Social afirma-se academicamente como disciplina profissional no universo das ciências sociais por confronto com as disciplinas científicas, dado que o seu desígnio é a intervenção sobre as necessidades humanas e os problemas sociais. Dualismo que transversa, até hoje, o percurso académico e profissional do Serviço Social, apesar das mudanças de trajectória ocorridas nas últimas décadas, a nível internacional. No caso português, o reconhecimento da licenciatura em 1989 (Institutos Superiores de Serviço Social de Lisboa, Coimbra e Porto), a expansão das licenciaturas, desde meados dos anos 90, também no ensino público, e a oferta de pós-graduação profissional e académica (mestrado e doutoramento) assinalam a nossa singularidade no contexto dos países da Europa (Cf. Negreiros, 1999: 13-44; Fernandes, Marinho e Portas, 2000: 131-147).



Duas definições lapidares podem ser recenseadas para configurar o Serviço Social: arte de fazer bem o Bem e arte baseada na ciência. A primeira está associada às expressões históricas de caridade baseada na ciência e de filantropia científica. Explicitam o pendor ético da prática profissional que, em maior ou menor escala (eticismo), formatou o Serviço Social, sobretudo nos países pobres e periféricos (Cf. Correia, 1950). A segunda, arte baseada na ciência, acentua e faz prevalecer as referências científico-técnicas que devem enformar a intervenção dos assistentes sociais, pese embora o ethos de normalização das relações humanas ou de adaptar o homem à sociedade e a sociedade ao homem, como refere Simone Paré (1956). Esta tendência ganha relevo, a partir de meados dos anos 60, com o Movimento de Reformulação do Serviço Social. Liberto do domínio das referências ético-valorativas, correntes de renovação do Serviço Social resvalam para o cientificismo (Barbier, 1973). Coexistem, neste Movimento, uma pluralidade de perspectivas que, segundo Vicente Paula Faleiros e no contexto do Brasil e da América Latina, são classificáveis em três direcções: conciliação com o Serviço Social tradicional; reforma para modernizar e minimizar a dominação; transformação da ordem vigente (1999). Dada a influência do MRSS em outros países, não é abusivo generalizar estas três direcções ou correntes.



Sobre a componente arte persistente na configuração do Serviço Social clássico-tradicional, o Documento de Araxá deixa a questão em aberto por divergências entre os participantes no 1.º Seminário de Teorização do Serviço Social, realizado em Araxá – Brasil. Para o propósito da modernização do Serviço Social, ou seja, conferir-lhe um estatuto científico-técnico no campo das ciências sociais como uma técnica social, por quanto influencia o comportamento humano e o meio, nos seus intre-relacionamentos, era contraditório ou ambíguo manter a componente arte (1967: 5).
O questionamento das ciências sociais e a reemergência da teoria social crítica, particularmente a partir da década de sessenta, em tempo de contestação do modelo de desenvolvimento do pós-guerra, não só agendam como problema o divórcio entre ciência e ética, como problematizam a tridivisão social – educativo – cultural e a bifurcação das ciências sociais entre disciplinas científicas e disciplinas profissionais. A arquitectura, em tensão com a engenharia, representa, entre as profissões de intervenção na cidade, um modus operandi que melhor articula ciências, tecnologias e valores com as artes. A intervenção do Serviço Social, de natureza psicossocial (nível micro) e sociopolítica (nível macro), ganha em pertinência quando articula a dimensão da ciência/técnica (racionalidade cognitivo-instrumental), a dimensão valorativa (racionalidade ético-política) e a dimensão das artes ou da imaginação (racionalidade estético-expressiva). Consultar os Anexos nº1 e nº2.



No contexto ideo-cultural e sócio-político da era da globalização ou da efectiva desregulamentação neo-liberal, reforça-se a crítica da cisão entre verdade – bem – belo, enquanto eixo do projecto da modernidade. O império da razão indolente, produto do culto da razão (racionalismo), está vinculado ao desperdício da experiência (Santos, 2000) e semeia uma era de decepção e de impudência.
Porque a modernidade tem por mátria a tradição, é possível ousar pensar e inventar um outro mundo pela conjugação de crise, crítica e criação, palavras – irmãs da mesma língua, o grego (Fernandes, 2003). Porque a deriva e a errância são constituintes da condição humana, é justo salientar que, para além das práticas assistencialistas, o Serviço Social legou-nos, em sua tradição, um capital simbólico de defesa dos direitos humanos, emblematicamente construído por Jane Addams (1861 – 1935) em sua luta pelos direitos humanos, particularmente dos direitos da criança e da mulher, reconhecida com o Prémio Nobel da Paz, em 1931 (Cf. Martinez, 1991: 138-146). Uma herança que urge resgatar para prosseguir a renovação e a responsabilidade do Serviço Social para com a comunidade (v. Anexo nº3).


2. Valores da profissão e direitos humanos: transgressões e negligências

2.1. Clarificação de conceitos básicos
Desde a Escola de Atenas (Sócrates, Platão, Aristóteles), por volta dos anos 600 a.C., que a ética, articulada com a lógica, a estética e a política, se constitui como área do pensamento filosófico, também, e pela mesma altura, no Oriente (Índia, a visão hindu ou budista do universo; China, o confucionismo e o tauismo).
A ética esclarece-nos que valores são princípios ou ideais que se impõem como categorias que devem modelar e conferir sentido aos comportamentos/condutas do homem na cidade, por exemplo, os valores da dignidade humana e da justiça social.
Os direitos e os deveres são preceitos jurídico-políticos, isto é, consagrados em determinada sociedade pelo Estado. Assim, em sociedades de ditadura, nem os direitos individuais/cívico-políticos são reconhecidos, pese embora a existência de pessoas, grupos e movimentos sociais que, animados pelos valores da liberdade, da igualdade e da diferença, se envolvem em lutas de denúncia e resistência ao despotismo. No campo de certas profissões, ancoradas numa ética como eixo constitutivo da sua identidade, resulta em conflito, constrangimentos e perseguição o exercício da sua actividade profissional em sociedades de ditadura, de democracia restrita ou de cidadania apenas como condição e não como acção. Veja-se, por exemplo, a extinção e saneamento dos técnicos do Serviço de Promoção Social Comunitária, do Instituto de Assistência à Família, em tempo de Portugal do marcelismo.
Deontologia, de etimologia grega, é formada pelos termos deon (obrigação, dever) e logos (discurso, ciência), criada por Jeremy Bentham (1834). Hoje, concorrencia com a expressão ética profissional (Cf. Monteiro, 2005: 24-29).

2.2. Princípios éticos ou deontológicos do Serviço Social
Na contemporaneidade, apesar do confronto entre correntes liberais e neo-liberais e correntes críticas ou de sentido emancipatório, a ética do Serviço Social ganhou um consenso a nível internacional, que se traduz na seguinte tabela de valores ou princípios filosóficos, segundo a ONU (1999):
1. Vida
2. Liberdade e autonomia
3. Igualdade e não discriminação
4. Justiça
5. Solidariedade
6. Responsabilidade social
7. Evolução, paz e não violência
8. Relações entre o homem e a natureza.


Esta configuração ética, que deveria ser comum a todas as profissões de intervenção social (Cf. Fernandes, 2004), representa uma nova ética porque supera a ética liberal (individualista, sexista ou homofóbica, antropocêntrica, consumista) em favor de uma ética emancipatória: a solidariedade do homem com o homem, do homem com a natureza e do homem com as gerações vindouras e o futuro da Terra (Cf. Santos 2000). Sobre esta postura filosófica alternativa, a ética emancipatória nomeia-se também como ética do cuidado, ética da solidariedade, ética da co-responsabilidade ou ética de mais Platão e menos Prozac. A última designação, da autoria de Marinoff (2004), inscreve-se na corrente actual da ética consequencialista de Peter Singer, ou seja, de uma ética do humanismo concreto, liberta de uma visão abstracta ou essencialista do homem (ex. erradicação da pobreza), relevando a condição humana em sua sócio-historicidade para reduzir o sofrimento larvar e crescente, tão desigualmente distribuído, apesar do canto abstracto do bem estar. Importa prever e medir as consequências das nossas escolhas/opções no quotidiano para alargar a cidadania como condição e aprofundar a cidadania como acção (v. Anexo nº4).
Assim, a ética convoca-nos por causas, não por coisas, como Honorato Rosa nos advertira em A Dignidade Humana. As coisas têm preço. O homem dignidade [Fernandes (org.), 1996: 227-233].

2.3. Valores menosprezados ou negligenciados na prática profissional
Num universo de cerca de 140 alunos, do 4º Ano da licenciatura em Serviço Social, do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, no ano lectivo de 2005/2006, na disciplina de Ética do Serviço Social e na qualidade de docente, solicitei a realização de um trabalho de grupo ou individual sobre casos de infracção aos valores éticos da profissão, identificados em contexto de estágio de final de curso.

Do levantamento, registo as seguintes áreas-problema por ordem decrescente:

a) O utente como cidadão, sujeito de direitos e deveres
Confrontados no quotidiano profissional com situações de vulnerabilidade, risco e exclusão social, a rotina em detrimento da investigação – reflexão e da qualidade do acto técnico, traduz-se, quantas vezes, em procedimentos que ferem/insultam a dignidade do utente como cidadão, ou seja, como sujeito de direitos. São situações sensíveis, que obrigam a pensar: a mãe seropositiva, o infectado com o HIV, o toxicodependente, o imigrante não legalizado, a velha com o seu cão em sua casa, o sem abrigo, o alcoólico ou o afectado com hepatite B, a adolescente grávida, na ocultação do adolescente-macho. Ainda, o deficiente motor ou invisual, numa cidade arquitectada para os chamados normais. Problemas de utente-pobre que procura os serviços públicos. É urgente denunciar as visitas domiciliárias, sem pudor humano e técnico, são clara agressão da privacidade, violação da lei num Estado de direito democrático. Em ética, os fins não justificam os meios. Acresce, frequentemente, que os serviços de recepção e triagem administrativa acentuam o poder institucional sobre o utente. Desta forma, nomeadamente os serviços de segurança e acção social tornam-se um calvário para os pobres e toda a sorte de cidadãos em situação de precariedade, mesmo que sejam licenciados. Atente-se no que acontece com o Rendimento Social de Inserção. Este poder burocrático-administrativo enxovalha o cidadão, quando a medida de política social se configura de prevenção e promoção contra a exclusão, erosiva ou explosiva.


Registe-se, ainda, que é frequente o desrespeito pelos direitos da criança, dos menores e dos idosos. Procedendo deste modo, é a cultura salazarista dos deveres que pende sobre os utentes, é o assistencialismo a flagelar a cidadania, é a subsistência, tutelada pelo Estado e pelos técnicos, a desencorajar/bloquear a autonomia crítica ou emancipatória do utente.
Em seu gabinete inóspito, o assistente social não estende a mão para cumprimentar, não acompanha o utente à porta… A fealdade é a cenografia da relação de ajuda.
Muitos, entre técnicos e políticos, teimam em não compreender que pobre deve ser cuidado como rico e não como coitado. Por exemplo, a criança sente o brinquedo estragado que lhe é oferecido como prenda de natal, na cidade recolhido, em generosidade de piedade/compaixão à solta.
Importa abrir o jogo sobre o voluntariado. Este que deveria ser entendido como actividade cívica não deve (poder, pode) ser um capital barato das instituições. Compete aos técnicos formar, enquadrar e supervisionar os cidadãos voluntários, segundo um duplo objectivo: a sua auto-formação e a formação para uma ajuda assentada nos direitos do utente. Chega. É demais esta cultura, traduzida na esmola como sacrifício egocêntrico e antidemocrático, disse Mary Richmond em 1922. Porquê perpetuar a peste (Albert Camus) ou a cegueira (José Saramago)? Porquê persistir na naturalização/psiquiatrização/psicologização das necessidades e problemas sociais, quando o homem é o somatório das suas relações sociais (Richmond, 1917)?

b) Confidencialidade e sigilo profissional
Matéria altamente sensível. Quantas vezes, a devassa e a falta de discrição, mesmo em conversas de corredor, exibem a privacidade do cidadão-utente ou, igualmente grave, com os colegas de equipa, em conversa fiada, não tendo a noção que as informações prestadas devem ser, e apenas, as estritamente necessárias.
Sendo o sigilo profissional um direito do assistente social, consagrado desde 1956 no Decreto-Lei nº 40678, de 10 de Julho, do Ministério da Educação Nacional, constitui-se em dever incontornável em nome da dignidade do utente e da relação de confiança que, supostamente, o acto técnico exige. Assim sendo, o Projecto de Estatuto da Ordem dos Assistentes Sociais, sem prejuízo do que vier a ser desenvolvido no Código Deontológico, dedica, no Cap. IV, Secção II, especial atenção.
Nos trabalhos dos meus alunos, em contexto de estágio final de Curso, a questão da privacidade, confidencialidade e sigilo é transversalmente identificada.

c) O posicionamento dos assistentes sociais em trabalho interdisciplinar
Por razões histórico-culturais do nosso país, e não só, o corporativismo académico e profissional continua em cena, dificultando ou impedindo a articulação de saberes em prol de respostas qualificadas. A naturalização e a psicologização das necessidades e problemas sociais são visões que encobrem ou ocultam a sobredeterminação dos factores socioculturais. O saber dos assistentes sociais deveria ser âncora de afirmação e diálogo para um diagnóstico melhor e uma intervenção contextualizada e integrada. Uma frente de luta por ganhar.
Simbolicamente, o conflito técnico e político entre alta clínica e alta social, ou seja, entre os interesses imediatos da instituição e as necessidades do utente.
d) Colaboração no processo de formação dos novos profissionais
Quando é tão badalado o divórcio entre a universidade e a sociedade/mercado, não se compreende a falta de abertura de certos assistentes sociais e a resistência de certas instituições para colaborarem na formação, seja por visitas de estudo, seja por estágios curriculares. Esta des-responsabilização empobrece não apenas os alunos, como fossiliza os técnicos e as instituições. Para seu mal, não entendem que a energia em crítica e imaginação dos “novíssimos” são um capital humano para a renovação/inovação e legitimação actualizada dos desígnios da instituição-organização.

e) Visibilidade pública no campo das políticas sociais
Submersos no terreno e na rotina do quotidiano, prisioneiros da burocracia jurídio-administrativa, os assistentes sociais como categoria profissional retardam seu Manifesto, ou seja, tomadas de posição pública sobre as políticas e a garantia dos direitos humanos, cívico-políticos e sociais.
O evidente silêncio dos assistentes sociais é questão que deixa em perplexidade muitos dos meus alunos, para já. Dos sectores críticos da sociedade portuguesa, também.
Como é possível que uma profissão, em seu trabalho quotidiano, dê conta de ausência de respostas, dê conta da inadequação de medidas, dê conta que os direitos sociais reconhecidos não são garantidos, se feche em silêncio e não se declare em Manifesto?
A prudência aconselha a transgressão do ditado quem cala, consente. Ser prudente é ser pacientemente persistente, é dar visibilidade pública à investigação-reflexão, diagnóstica e propositiva, da profissão. Também, por esta causa maior, é urgente a criação da Ordem dos Assistentes Sociais. A mobilização e a pressão sociopolítica são a estratégia alternativa aos que querem dar tempo ao tempo, não cuidando que estão a perder tempo.

3. Deontologia ou ética profissional e código deontológico

3.1. Por uma ética da intervenção profissional
A tridimensionalidade do modus operandi do Serviço Social (científico-técnica, estético-expressiva e ético-política) modela como objectivo fundamental: promover o desenvolvimento de capacidades e competências sociais - sejam elas colectivas ou individuais - a três níveis: cognitivo (do conhecimento), fornecendo informação aos indivíduos, incentivando a sua compreensão para o funcionamento da sociedade e orientando-os sobre a melhor forma de utilizarem os seus recursos; relacional, facilitando o desenvolvimento das relações interpessoais e grupais, capacitando os indivíduos para assumirem novos papéis e estimulando novas formas de comunicação e expressão; organizativo, promovendo a interacção entre cidadãos, organizações e outras estruturas sociais, accionando ou criando novos recursos sociais e desenvolvendo a participação e a capacidade organizativa dos indivíduos e grupos.
Na dimensão ética ou axiológica, em conformidade com as orientações internacionais, o Projecto de Estatuto da Ordem dos Assistentes Sociais, no Cap. IV – Deontologia Profissional, define os seguintes valores:
a) Todo o ser humano tem um valor único em si mesmo, o qual justifica o respeito pela sua pessoa;
b) Todo o indivíduo tem direito à sua autodeterminação, emancipação e plena expansão das suas capacidades e tem obrigação de contribuir para o bem-estar da sociedade;
c) Todo o indivíduo tem direito à justiça e equidade sociais.
Neste quadro de valores ético-políticos, o exercício do Serviço Social:
- é incompatível com o apoio directo ou indirecto a grupos de indivíduos, forças políticas ou sistemas de poder que dominem os seres humanos pelo uso da força, tais como a tortura física ou psíquica, ou quaisquer outros meios violentos;
- visa a mudança societária, em particular face aos que sofrem as consequências de quaisquer formas de exclusão e injustiça social, nomeadamente por pobreza, desemprego, doença, cumprimento de pena ou violação dos direitos humanos;
- vincula o projecto profissional ao processo de construção de uma ordem societária que permita o desenvolvimento dos seres humanos, salvaguardando o equilíbrio ecológico e os direitos das gerações vindouras.

3.2. Conflitualidade entre valores e normas
A codificação/normatividade dos valores ou princípios fundamentais não deve traduzir-se em catecismo que espartilha, espatifa e exclui a auto-reflexão e a reflexão em banda larga (Moita, 1996). As normas ou regras, sempre cultural e historicamente determinadas, devem reportar-se, de modo dialéctico, aos valores/princípios que as justificam como melhor bem, ou seja, como redução do sofrimento e da vida consentida e como exponenciação da vida com sentido (Cf. Ferreira, 1998).
Nesta perspectiva, o Código Deontológico, enquanto instrumento de regulação da profissão, define um conjunto de normas que visam disciplinar o exercício profissional. Assim, o Projecto de Estatuto da Ordem dos Assistentes Sociais, (Secção I e II, artº.s 49º - 54º) categoriza os seguintes deveres e direitos:
- Deveres deontológicos para com a sociedade
- Deveres para com a Ordem
- Deveres para com os colegas e outros profissionais
- Do sigilo profissional.
Julgamos que outra categoria normativa não deve deixar de ser explicitada: os valores/deveres para consigo próprio, como se defende em Por uma carta ética da intervenção social (Fernandes, 2004: 147-149). Neste âmbito, considera-se fundamental, como o pão para a boca, o dever da reflexão-investigação para compreender os riscos, casuisticamente trabalhados, no contexto da sociedade do risco, despudoradamente exibida pelos media, em sonolento torpor dos cidadãos. Que nos valha a agrura e a emoção do real e não a anestesia imbecil do virtual. De facto, os técnicos também são mulheres e homens em risco na cidade, quando o desejo do reconhecimento, da dignidade e da diferença for o seu ethos pessoal e profissional.
Enquanto se aguarda a lei-quadro sobre as Ordens, em sede da Assembleia da República, reinsistimos no propósito de trabalhar o Código Deontológico com a participação empenhada dos profissionais. A este respeito, retomo a proposta divulgada no meu texto A Ordem dos Assistentes Sociais: ponto de situação e proposta, no Boletim de Notícias, nº4, Junho de 2006, p. 13, da APSS.

3.3. Por uma ética das profissões de intervenção social
Do ponto de vista do utente, a intervenção de certos assistentes sociais, médicos, professores ou outros animadores, sem falar dos amadores ou voluntários, é de humilhação e submissão. A cidadania como condição e, sobretudo, a cidadania como acção resultam em quase fracasso. Certos técnicos, “toxicodependentes” das necessidades e problemas de subsistência ou materiais, são incapazes de compreender o outro lado da vida: as necessidades de existência ou não materiais, igualmente básicas. O reconhecimento e a dignidade do outro, condição necessária para o desenvolvimento da sua auto-estima e sentido de si, submergem no tecnicismo burocrático-administrativo da intervenção. Assim, o ethos profissional traduz-se em acto disciplinar ou de controlo.
Desta forma, exercem uma pedagogia de opressão ou antidialógica, como, desde os anos 60 do século XX, denunciava Paulo Freire. Em causa está a sobrevitimização da vítima. Mas, um outro futuro, no presente, é possível. O inconformismo e a ousadia recomendam-se como imperativo ético, pessoal e cívico. Antes Platão que Prozac…
Em acções de formação contínua de técnicos do campo da intervenção social (assistentes sociais, sociólogos, psicólogos, professores, animadores, entre 2001 e 2004, no continente e nos Açores), dei conta da vontade dos formandos, cerca de 160, de buscar/construir uma ética básica e transversal, que consubstanciámos em Por uma carta ética da intervenção social [Fernandes (relator), 2004: 139-151].

Em conclusão, parafraseando Sócrates e Buda, diria: A vida sem conhecimento (estético, ético e científico) não merece ser vivida, porque se torna vida consentida e não vida com sentido, porque impede o homem de modelar-se a si próprio, como faz o carpinteiro quando modela a madeira ou o frecheiro quando modela as setas. Escutemos, ainda, a palavra de Mia Couto: Vou deixar a porta aberta. Assim, você escuta o mar… (2001) em nome de Um rio chamado tempo. Uma casa chamada terra (2002). Em sonoplastia, a palavra de Natália Correia, apaixonada pelo mar atlântico, em Do Dever de Deslumbrar:
Para que se justifique a nossa vida
É preciso que alguém a invente em nós.
Os que nunca inspiraram um poema
São as únicas pessoas sós.

As pessoas caem como folhas
E secam no pó do desalento
Se não as leva consigo
A fúria poética do vento.

Bibliografia Sumária
APSS (1985) – Código Deontológico Internacional dos Assistentes Sociais, Lisboa, APSS (dactil.).
APSS (2002) - Projecto de Estatuto da Ordem dos Assistentes Sociais, Lisboa, APSS (dactil.).
APSS (2006) – Boletim de Notícias, nº4, Lisboa, APSS, p. 13.
ARENDT, Annah (1958) - A Condição Humana, Lisboa, Relógio d’Água Editores, 2001.
BANKS, Sarch (2001) – Ética em Fragmentos, in Helena Mouro e Dulce Simões (coords.), 100 Anos de Serviço Social, Coimbra, Quarteto, p. 101-124.
BARROCO, Maria Lúcia Silva (2001) – Ética e Serviço Social: fundamentos ontológicos, São Paulo, Cortez.
BRANCO, Francisco e FERNANDES, Ernesto (2005) – “Le service social au Portugal: trajectoire et enjeux”, in Le travail social internacional. Éléments de Comparaison, Québec – Canadá, Presses de l’Universitae Laval, p. 165-186.
CARVALHO, Maria do Carmo Brant (2001) – Acção Social e os Saberes, in Rev. “Intervenção Social”, nº23/24, Lisboa, ISSS – Departamento Editorial, Dezembro de, p.339-349.
CONFERÊNCIA Episcopal Portuguesa (2003) – Carta Pastoral: Responsabilidade Solidária pelo Bem Comum, Lisboa, Secretariado Geral da CEP.
CORREIA, Natália (1993) – O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I e II, Lisboa, Projornal.
COUTO, Mia (2001) – Mar me quer, Lisboa, Caminho.
COUTO, Mia (2002) – Um rio chamado tempo. Uma casa chamada terra, Lisboa, Caminho.
FERNANDES, Ernesto (org.) (1996) - A Dignidade Humana. As coisas têm preço. O homem dignidade, Honorato Rosa – Escritos e Depoimentos, Lisboa, ISSS e Multinova.
FERNANDES, Ernesto e BRANCO, Francisco (org.) (1998) - Cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, nº especial da Rev. “Intervenção Social”, Lisboa, Departamento Editorial do ISSSCoop – Cooperativa de Ensino Superior Intervenção Social, CRL.
FERNANDES, Ernesto (2003) – Intervenção e Serviço Social: a irrecusabilidade do estético-expressivo para um saber sustentável, Comunicação, I Congresso de Serviço Social da RNESS, Lisboa, 28-30 de Outubro (dactil.).
FERNANDES, Ernesto (2004) – Por uma carta ética da intervenção social, in Rev. “Intervenção Social#, nº29, Lisboa, CESDET, 2004, p. 139-151.
FERREIRA, M. J. Carmo (1998) - Vida Consentida, ou com Sentido?, Lisboa, Pub. Terraço.
FIAS – Federação Internacional de Assistentes Sociais e AIESS – Associação Internacional de Escolas de Serviço Social (2006) – Ética no Serviço Social: Declaração de Princípios, Lisboa, APSS (dactil.).
LEONE, Salvino, Privitera, Salvatore, Cunha, Jorge (coord.) (2001) - Dicionário de Bioética, Vila Nova de Gaia – Portugal, Editorial Perpétuo Socorro/Editora Santuário.
MARINOFF, Lou (2004) – Mais Platão, Menos Prozac!, 5ª. Ed., Lisboa, Presença.
MARTINEZ, Manuel Moix (1991) – Introducción al Trabajo Social, Madrid, Trivium.
MOITA, Luís, et. alt. (1999) – Dossier – Deontologia e Estatuto Profissional dos Assistentes Sociais, in Rev. “Intervenção Social”, nº19, Lisboa, ISSSCoop., p.9-68.
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PINTASILGO, M. Loudes (presid.), Comissão Independente População e Qualidade de Vida (1998) - Cuidar o Futuro. Um programa radical para viver melhor, Lisboa, Trinova.
SANTOS, Boaventura de Sousa (2000) - A Crítica da Razão Indolente: contra o desperdício da experiência, Porto, Afrontamento.
SANTOS, Boaventura de Sousa (2006) – A Gramática do Tempo: para uma nova cultura política, Porto, Presença.
SERAFIM, Maria do Rosário (2004) – O reconhecimento da condição ética dos cidadãos: um imperativo ético para o serviço social, in Rev. “Intervenção Social”, nº29, Lisboa, CESDET, p. 25-52.
SINGER, Peter (1993) – Ética Prática, 2ª ed., Lisboa, Gradiva, 2002.

VÁRIOS (1998) - As Obras de Misericórdia para o Século XXI, Lisboa, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e Moinho Velho.

VÁRIOS, (2004) – Ética na Contemporaneidade. Ética e Serviço Social, Rev. “Intervenção Social”, Lisboa, CESDET.

Pelo Dia Mundial do Assistente Social*
27 de Março de 2007

* Professor decano do ex-Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Consultor da Direcção e Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Chapitô. Presidente do Conselho Fiscal da APSS.
* Comunicação proferida no Encontro Assistentes Sociais e Compromisso com um Mundo Diferente. Cidadania como Acção face à Pobreza, org. APSS e AIDSS, Auditório da Câmara Municipal de Matosinhos, Porto, 27 de Março de 2007.

terça-feira, abril 24, 2007

Serviço Social Os Portugueses em França Antes do 25 de Abril

Serviço Social A Revolução dos Cravos Um Olhar desde França

Alcina Martins O Processo de Bolonha e A Formação Em Serviço Social



O PROCESSO DE BOLONHA E A FORMAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL
Questões e Problemas *



Alcina Martins**


Em primeiro lugar quero agradecer o convite às entidades organizadoras, à APSS e à AIDSS e saudar os colegas, Assistentes Sociais, estudantes e todos os presentes.

Na primeira comemoração do Dia Mundial do Assistente Social gostaria de dizer que neste tipo de realizações todas as organizações da categoria profissional devem dar provas da sua vitalidade, congregando esforços no sentido de comemorarem este dia que deve ser de unidade na diversidade, identificando os principais processos sociais e políticos com que se confrontam e em que estão envolvidos, os processos de luta em curso, promovendo-se um debate alargado com os Assistentes Sociais, os docentes, investigadores e estudantes de Serviço Social.

Um sinal dessa vitalidade são os livros de duas Assistentes Sociais portuguesas Maria Helena Nunes[1] e Marlene Braz Rodrigues[2] - publicação das suas teses de doutoramento - que vêm enriquecer a produção do conhecimento na área de Serviço Social.

Como me solicitaram que analisasse questões da formação em Serviço Social, perspectivas actuais, decidi abordar três aspectos:

I - Fazer uma breve referência ao processo de Bolonha, que constitui uma questão incontornável no ensino superior europeu e português;
II - O processo de Bolonha e a formação em Serviço Social – o ponto da situação em Portugal;
III - E por último, algumas questões e problemas com que nos confrontamos no ensino em Serviço Social

I – O Processo de Bolonha
O processo de Bolonha tem por base um compromisso, assumido em 1999 por governantes de países europeus, que pretende harmonizar, até 2010, os graus e diplomas atribuídos, para facilitar as equivalências de cursos nas universidades dos 45 estados subscritores, a mobilidade e a empregabilidade dos estudantes no espaço comunitário. Pretende ainda promover mudanças na forma de ensinar e aprender procurando tornar os alunos mais independentes e autónomos.
O ensino superior é organizado em três ciclos de formação (1º ciclo licenciatura, 2º ciclo mestrado, 3º ciclo doutoramento), que já existiam. A duração do 1º e 2º ciclos deve perfazer cinco anos e o 3º ciclo três anos. A diferença reside no encurtamento de formações, na redução a efectuar na formação do ciclo inicial. Deste modo, a duração de uma licenciatura de 5 anos, no sistema anterior, pode variar hoje entre uma formação de 1º e 2º ciclo, consoante se trate ou não de uma profissão regulamentada no espaço europeu.

As instituições públicas, universitárias, do ensino politécnico e do ensino privado apresentaram em Março e Novembro de 2006, à Direcção Geral de Ensino Superior, as propostas de reestruturação dos cursos para registo de adequação/ autorização de funcionamento, no âmbito de Bolonha, para funcionarem nos anos lectivos 2006/07 e 2007/08. A expectativa é de que pelo menos nas licenciaturas, 90% da oferta já esteja convertida a Bolonha em 2007/2008. A Agência de Acreditação e avaliação do ensino superior, criada pelo Conselho de Ministros (Fev 2007), terá até 2009 que reapreciar todos os processos adaptados a Bolonha, calculando-se cerca de 2500 cursos[3].
Passado um ano da publicação do Decreto Lei nº 74/2006 de 24 de Março, que está na base da adequação dos cursos dos ensino superior, em Portugal, várias críticas são feitas ao processo de Bolonha.
Veja-se o Conselho Nacional de Educação (CNE), que no início de Março, refere que a “aplicação de Bolonha traduziu-se numa redução substancial do número de horas de aulas, sem o devido apoio tutorial por parte dos professores e sem o desenvolvimento das capacidades de trabalho autónomo por parte dos alunos, o que "pode levar-nos para um caminho de perda de qualidade e de aprofundamento das desigualdades sociais"[4].
Para o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas “a percepção é que, por parte do Estado, houve uma desvalorização política do processo. O ano de arranque de Bolonha coincidiu com o de desinvestimento no ensino superior”[5].

O Delegado Nacional do Processo de Bolonha, e o presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos fazem um “balanço negativo”, considerando que a tutela deveria ter aproveitado Bolonha para ordenar a oferta educativa encontrando-se o primeiro preocupado com a qualidade da formação, que “vai levar tempo a analisar e a corrigir”[6].
Se atendermos aos trabalhos de Almerindo Janela Afonso e nomeadamente ao artigo de Fátima Antunes (2006) podemos ressaltar dois aspectos associados ao processo de Bolonha:



1. O défice democrático - as decisões políticas envolveram principalmente ou exclusivamente os Ministros da Educação ou os Chefes de Estado e de Governo, levando à eliminação sumária e extra-legal dos controlos democráticos inerentes ao processos politicos estabelecidos nos sistemas nacionais. No caso de Bolonha só recentemente têm vindo a participar, “nos debates e grupos de trabalho, entidades que agregam, ao nível europeu, instituições de ensino superior e associações de estudantes, tendo os docentes e investigadores sido liminarmente excluídos até à 4ª ou 5ª Conferência Ministerial de Maio de 2005 em Bergen, na Noruega[7]. O desenvolvimento das políticas educativas tem-se vindo a afastar dos princípios democráticos de representatividade, legitimidade e negociação.
2. A deslocação do processo de formação das políticas para a educação em direcção ao nível supranacional provoca uma mudança do papel do Estado, “reservando a responsabilidade em última instância e a autoridade sobre a regulação, mas transferindo o seu exercício e controlo directos para outras entidades ou actores, por exemplo, agências de avaliação, de certificação ou de acreditação”[8]. “A adopção e generalização de formas de acreditação de âmbito europeu, ou mesmo que nacional (…) sendo susceptíveis de aprofundar o impacto das lógicas mercantis e concorrenciais no sector e de reduzir à sua mínima expressão os valores, as lógicas e poderes associados ao trabalho académico”[9].

II – O Processo de Bolonha e o Serviço Social

A formação académica em Serviço Social em Portugal, no século XXI, situa-se nos três ciclos de formação.

Com base na informação contida na ligação web da DGES[10], fazemos o ponto da situação relativamente aos registos efectuados da adequação a Bolonha dos ciclos de estudo em Serviço Social em 2006/07 e 2007/08.





Se atendermos às fases de apresentação à DGES dos pedidos de autorização e ou adequação dos cursos ao processo de Bolonha, em Março de 2006, obtiveram registo da adequação, 13 cursos referentes ao 1º ciclo em Serviço Social e 1 do 2º ciclo. Dos pedidos entrados em 15 de Novembro já foram registados 9 cursos, 7 do 1º ciclo e 2 do 2º ciclo.
A formação do 1º ciclo em Serviço Social encontra-se em 10 estabelecimentos de ensino superior público: 5 de natureza universitária e outros tantos no politécnico. Em 9 estabelecimentos do ensino superior privado: 7 são de natureza universitária e 2 de cariz politécnico. E existem ainda 3 programas de 1º ciclo no ensino superior concordatário.
Assim, de um total de 22 cursos de Serviço Social, até ao momento, 20 já efectuaram a adequação ao 1º ciclo a Bolonha. Os quadros que se seguem apresentam elementos mais pormenorizados.





Em estabelecimentos de ensino superior público universitário registam-se 4 cursos do 1º ciclo (Universidade de Trás-os Montes e Alto Douro, Universidade de Coimbra, Universidade Técnica de Lisboa/ Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e Universidade dos Açores) 5 em estabelecimentos do ensino superior público politécnico (os Institutos Superiores Politécnicos de Castelo Branco, Viseu, Beja, Leiria e Portalegre), perfazendo um total de 9. O 1º ciclo em Serviço Social na Universidade da Madeira ainda não obteve até ao momento registo de adequação.



Oito cursos já foram adequados ao 1º ciclo no que diz respeito aos estabelecimentos do ensino superior privado universitário (Instituto Superior Miguel Torga - ISMT, Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa - ISSSL/ Universidade Lusíada, Instituto Superior de Serviço Social de Beja - ISSSB, Universidade Fernando Pessoa, Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias e Instituto Superior de Serviço Social do Porto - ISSSP) e do ensino privado politécnico (Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo e o Instituto Superior Politécnico Gaya).

O Instituto Superior Bissaya Barreto (ISBB) como está a desactivar a licenciatura em Serviço Social, não tendo aberto matrículas para o primeiro ano no presente ano lectivo não apresenta registo deste 1º ciclo. Ao invés, o ISSS Beja que tem o registo da adequação, irá encerrar em Março de 2008[11].



A Universidade Católica Portuguesa apresenta o registo das três licenciaturas em Serviço Social adaptadas a Bolonha.


Dos 4 cursos de Mestrado em Serviço Social existentes (ISSSL, ISMT, ISSSP, Universidade Católica Portuguesa) foram registados até ao momento, 3 cursos de 2º ciclo, todos do ensino superior universitário particular (ISMT, ISSSL/ Universidade Lusíada, Universidade Fernando Pessoa).
A Universidade Católica tem a funcionar dois cursos de mestrado em Serviço Social, não tendo ainda obtido o registo da sua adequação e a Universidade Lusófona propôs a criação de um 2º ciclo em Serviço Social, assim como o Instituto Superior Bissaya Barreto.

Quanto aos cursos de doutoramento em Serviço Social existentes na Universidade Católica e no ISSSL/ ISCTE e o doutoramento em Ciências do Serviço Social do ISSSP/ Universidade do Porto não existe informação de registo, não se tendo conhecimento se estes estabelecimentos procederam à sua adaptação a Bolonha.
Não tendo sido adoptados termos de referência mínimos comuns para a atribuição dos graus académicos em Serviço Social, verifica-se que a extensão dos ciclos de formação continua a ser diferenciada tanto no nosso país como noutros países europeus.
Dos 20 programas de 1º ciclo em Serviço Social, 11 apresentam uma duração de sete semestres (três anos e meio) e os restantes 9, com três anos.
Todos os cursos do ensino superior público universitário, do ensino concordatário e do ensino superior particular universitário apresentam três anos e meio, com excepção da Universidade Fernando Pessoa e Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Os cursos nestas duas universidades e todos os 1º ciclos de Serviço Social no ensino superior politécnico, público e particular, têm uma duração de seis semestres.
Os cursos de 2º ciclo apresentam uma duração de 3 semestres no ISMT e no ISSSL/Universidade Lusíada e de 4 semestres na Universidade Fernando Pessoa.
Primeiras ilações/ consequências do processo de Bolonha nesta área:

1. O grau de bacharelato em Serviço Social existente no ensino superior politécnico, público e privado deixa de existir. Ao 1º ciclo em Serviço Social corresponde unicamente o grau de licenciado.
2. Foi contemplada a uniformização da designação de Serviço Social nos vários ciclos com a substituição de designações existentes de Trabalho Social e Política Social por Serviço Social. Alterações que vieram a verificar-se no mestrado em “Trabalho Social” da Universidade Fernando Pessoa, na licenciatura em “Política Social” do ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa, na licenciatura em “Trabalho Social” da UTAD, na licenciatura bietápica em “Intervenção Social e Comunitária do Instituto Superior Politécnico Gaya, que passaram a designar os respectivos ciclos de formação por Serviço Social.

Deste modo, a formação de 1º ciclo em Serviço Social passou a estar contemplada nas universidades públicas em Lisboa, Coimbra, Miranda do Douro e nas ilhas. No entanto, não funciona nem foi ainda criado nenhum curso de 2º ou de 3º ciclos em Serviço Social nestes estabelecimentos de ensino público.

3. Foi nomeada em Setembro de 2006 uma Comissão de Especialistas em Serviço Social, pela primeira vez constituída por Assistentes Sociais, que junto da Direcção Geral de Ensino Superior tem vindo a dar parecer, exclusivamente, sobre os pedidos de autorização de novos cursos de 1º e 2º ciclos em Serviço Social.


III - Algumas questões e problemas com que nos confrontamos
na formação em Serviço Social

Como não se encontra disponível a informação necessária para se proceder à análise dos planos de estudo do 1º e 2º ciclos em Serviço Social resta-nos colocar algumas questões:
1. Como foi desenvolvido o processo de adequação e os planos de transição seguidos por cada curso de Serviço Social:
. Qual o grau de participação dos sujeitos envolvidos directamente (professores de Serviço Social, de outras áreas do conhecimento, alunos). O documento “Posição da Associação de Profissionais de Serviço Social (APSS) sobre o processo de Bolonha e a formação em Serviço Social” (Fevereiro de 2006), subscrito pelo Centro Português de Investigação em História e Trabalho Social (CPIHTS), Centro de Investigação em Serviço Social e Estudos Interdisciplinares (CISSEI), Associação de Investigação e Debate em Serviço Social (AIDSS), Sindicato Nacional dos Profissionais de Serviço Social foi alvo de análise e discussão, influenciando as decisões tomadas por cada curso?
. O processo foi conduzido de forma autocrática ou resultou de um debate alargado e participado? Quem o conduziu? A Direcção científica dos ciclos de estudo em Serviço Social, quando existe? coordenada por professores de Serviço Social ou por professores de outras áreas do conhecimento? orgãos de gestão, professor (es) indigitados para desenvolver o processo? Como foram equacionados os planos de transição no 1º e 2º ciclos? Como está a ser equacionado o acesso dos licenciados, com 4 e 5 anos, ao 2º ciclo?

2. A formação em Serviço Social não se encontrando regulada pelas organizações da categoria profissional, tem vindo a apresentar disparidades de vária natureza. Do processo de Bolonha o que resultou em termos da estrutura curricular e plano de estudos em Serviço Social:
. A área de Serviço Social é ou não estruturante da formação? Que fundamentação teórico-metodológica e ético-política está subjacente à formação em Serviço Social? Os estágios integram a formação? A supervisão académica dos estágios é assegurada exclusivamente por docentes Assistentes Sociais? A investigação em Serviço Social está contemplada e de que forma? Em que medida as escolas têm conhecimento e disponibilizam a produção do conhecimento de Assistentes Sociais portugueses e de outros países resultante da investigação em cursos de mestrado e de doutoramento? As escolas têm centros ou núcleos de investigação? E as que apresentam 2º e 3º ciclos? Face ao desiquilibrado número de cursos de 1º e 2º ciclo em Serviço Social como fica assegurada a investigação e a produção do conhecimento? Qual a qualificação académica dos docentes Assistentes Sociais e de outras áreas do conhecimento? Os docentes são contratados através de concurso público ou por outras vias? Que transformações ocorreram nas metodologias de ensino e nos processos de avaliação?
3. Problemas de natureza laboral são hoje uma realidade no ensino superior em Serviço Social:
. O desemprego de docentes decorrente de processos de integração em Universidades, - o caso do ISSSL na Universidade Lusíada - ou da desactivação de licenciaturas em Serviço Social, caso do ISSS Beja e do ISBB. A não renovação de contratos ou propostas de “renovações” com menos direitos (redução da duração dos contratos, variando entre 3 meses e 1 ano; passagem forçada ao regime de tempo parcial, com a impossibilidade de opção pela dedicação exclusiva. Em risco estão o emprego e as condições de trabalho dos docentes da formação em Serviço Social.

Os problemas existentes resultantes das mudanças na formação, no exercício profissional, no mercado de trabalho, nas alterações provocadas pela Reforma da Administração Pública (nomeadamente ao nível dos vínculos, carreiras e remunerações) exigem que se reforce a organização da categoria profissional.
Há que desenvolver o movimento pela criação da Ordem que organize os milhares de Assistentes Sociais que parecem dar sinais de se quererem envolver neste processo ao terem assinado a petição a favor da ordem.
Entretanto, não se pode esperar pela criação da Ordem e pensar que a partir dela todos os problemas se resolvem.
A conjuntura exige que a profissão se reorganize, que clarifique qual o seu projecto profissional e que a APSS, juntamente com as organizações da categoria e os Assistentes Sociais unam esforços nesse sentido.
Assim, nomeadamente no campo do ensino, perante a formação diversificada em Serviço Social, antes e após Bolonha, qual a posição da APSS face a todos estes profissionais de Serviço Social, com o grau de licenciados, uns que o obtiveram em 5 ou 4 anos de formação, outros nas licenciaturas bietápicas em 3+1 e com Bolonha em 3 anos ou 3 anos e meio? E o que se preconiza para os Assistentes Sociais cuja licenciatura de 5 anos corresponde presentemente ao 2º ciclo?
Como à agência de Acreditação caberá reapreciar todos os processos registados na DGES, procedendo à avaliação da formação até 2009, considera-se fundamental, que até lá:

1º A APSS se venha a pronunciar sobre as questões que a diversidade da formação coloca ao trabalho dos Assistentes Sociais e as implicações na inserção e desenvolvimento da carreira profissional;
2º Que a APSS tome posição face aos problemas que os seus associados e Assistentes Sociais vivem hoje, no mercado de trabalho, na situação de desemprego e de precarização do trabalho, nas mudanças que estão a ocorrer no Serviço Social;
3º Face à necessidade da profissão ter um voz pública e independente sobre a formação em Serviço Social, qualquer que seja a sua natureza, propõe-se a dinamização do grupo de ensino da APSS que poderá vir a desenvolver uma proposta de regulação do ensino em Serviço Social, com a definição e fundamentação de parâmetros mínimos de formação.
Como no próximo mês de Novembro, no âmbito das comemorações dos 70 anos de Serviço Social no ISMT pretendemos organizar um seminário, uma jornada de trabalho, que se debruce sobre a formação de 1º e 2º ciclos em Serviço Social, após adequação ao Processo de Bolonha, gostariamos de convidar desde já esse grupo de ensino da APSS a participar no evento.
Por fim por última palavra para dizer que em eventos desta natureza, como o Dia Mundial do Assistente Social também se reforça a identidade do Serviço Social Português, que antes do processo se Bolonha tinha desenvolvido uma trajectória de qualificação académica e profissional que o colocava entre os países mais avançados da Europa.
Há que continuar o caminho no sentido do fortalecimento do Serviço Social Português e do seu projecto profissional, através de organizações fortes da categoria - organizações sindicais, organizações de investigadores, Associações de estudantes - em que se insere o movimento pela construção da Ordem dos Assistentes Sociais.
* Comunicação apresentada no Dia Mundial do Assistente Social, APSS/ AIDSS, Matosinhos, 27 de Março de 2007.
** Assistente Social, Directora da Licenciatura em Serviço Social, Coordenadora do Mestrado em Serviço Social do Instituto Superior Miguel Torga, Coordenadora Científica do CPIHTS, integra Comissão de Especialistas em Serviço Social.


[1] Maria Helena Nunes, Serviço Social e Regulação Social. Agência do Assistente Social, 2004, Porto, Estratégias Criativas, 2004
[2] Marlene Braz Rodrigues, Corpo, Sexualidade e Violência Sexual. Análise e Intervenção Social, Lisboa, São Paulo, CPIHTS, Veras, 2007.

[3] Cf. FENPROF, “Agência de Acreditação vai reavaliar todos os cursos superiores até 2009”, 30 de Fevereiro de 2007, http://www.fenprof.pt/superior/?aba=37&cat=103&doc=2138&mid=132

[4] Veja-se “Conselho critica a aplicação do processo de Bolonha”, Sol, 6 de Março de 2007: http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=24793
[5] Bárbara Wong, “O que mudou na vida das escolas um ano depois de Bolonha”, Público, 24 de Março de 2007, pág. 14.
[6] Bárbara Wong, op.cit, pág. 14.
[7] Fátima Antunes, “Governação e Espaço Europeu de Educação: regulação da educação e visões para o projecto ‘Europa’”, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 75, Outubro 2006, pág. 64.
[8] Fátima Antunes, op.cit, pág 65, 88,
[9] Fátima Antunes, op.cit, pág 77 e 78.
[10] Página Web da Direcção Geral do Ensino Superior:
http://www.pedagogicosensinosuperior.pt/PEDAGOGICO/REGISTO/Notícias/RegAdeq.htm
[11] Rádio Voz da Planície, “ISSSB: Acentua-se a crise”, 15 de Março de 2007,
http://www.vozdaplanicie.pt/index.php?q=C/NEWSSHOW/11514

Trabalhadores do ISSSB Denunciam CESDET por Falta de Cumprimentos de Acordo

Ex-funcionários do ISSSB acusam a CESDET de não ter cumprido o acordo para pagamento de dívida, assinado no passado dia 23 de Março.

No passado dia 23 de Março, quatro funcionários do Instituto Superior de Serviço Social de Beja assinaram com a CESDET um acordo para pagamento de dívida. No documento a Comissão Liquidatária da Cooperativa de Ensino Superior de Desenvolvimento Social, Económico e Tecnológico comprometia-se a pagar em 10 prestações mensais os ordenados em atraso, a partir do dia 20 de Abril. Na passada sexta-feira os quatro credores do ISSSB receberam uma carta da CESDET a referir que só receberiam um 1/3 do valor mensal acordado.

Paula Silva denunciou à Voz da Planície o incumprimento, por parte da Comissão Liquidatária, do acordo para pagamento de dívida. A ex-funcionária do Instituto Superior de Serviço Social de Beja disse à nossa estação que "mais uma vez estamos perante o incumprimento do acordo, porque o pagamento efectuado a 20 de Abril foi de 120 euros e não de 360 euros, como havia sido acordado". Rematou referindo que não a surpreende "a falta de cumprimento" e que não sendo já funcionária da instituição considera que nada tem a ver com "os problemas do Instituto".
Joaquim Caeiro, da Comissão Liquidatária da CESDET referiu à Voz da Planície que "o acordo não foi cumprido, porque foram efectuados dois pagamentos, um às finanças e outro ao Tribunal, que debilitaram financeiramente a Comissão". Acrescentou que "não houve outra opção já que o Estado é o credor privilegiado" e avançou também com a indicação de que "neste momento" não consegue "fazer previsões" e que "não sabe se no próximo mês" vai poder "pagar os valores assumidos com os ex-funcionários".
Ana Elias de Freitas
In VOZ da Planicie
http://www.vozdaplanicie.pt/index.php?q=C/NEWSSHOW/12422

sexta-feira, abril 20, 2007

SERVIÇO SOCIAL Lançamento do Livro de Marlene Rodrigues na Universidade Lusófona



Lançamento do Livro de Marlene Rodrigues

Na Universidade Lusofona

23 de Abril de 2007


18 horas


23/04 - Convite para a Sessão de lançamento do livro "Corpo, Sexualidade e Violência Sexual", de Marlene Braz Rodrigues a realizar no auditório Victor de Sá na Universidade Lusófona da Humanidades e Tecnologias, no Campo Grande em Lisboa, pelas 18h00.


A Cerimonia será animada pelo conjunto ESPÍRITO NATIVO






NÃO FALTES


quinta-feira, abril 19, 2007

domingo, abril 15, 2007

Serviço Social SEXISMO E RACISMO CORDIAL


Sexismo e Racismo cordial
Zelma Madeira
Especial para O POVO
De acordo com a professora Zelma Madeira, as relações de gênero e as raciais convergem para fazer das mulheres negras o grupo de menor poder na sociedade brasileira. Desemprego, violência sexual e doméstica seriam algumas das conseqüências do debate cruzado de gênero e etnicidade
No Brasil convivemos com o paradigma que informou a "democracia racial", de explicitação das etnias como socialmente reconhecidas, no entanto isto deu base às teses explicativas da identidade nacional através de uma miscigenação "harmônica" das três raças. Perdurou um discurso ideológico de ocultamento do racismo, escondendo processos de dominação e discriminação contra a população negra. Afirmou-se de modo genérico e sem questionamento essa harmonia racial empurrando para o plano pessoal os possíveis conflitos.
Neste sentido cabe algumas reflexões sobre as mulheres negras. A conjugação de sexismo e racismo têm se constituído no grande impedimento para o desenvolvimento de suas potencialidades. Desde que foram retiradas da África, passaram por todo tipo de violência, foram estupradas pelos senhores, humilhada pelas sinhás, tiveram seus corpos usados como incubadoras para a geração de outros escravizados, impedidas de criar seus filhos, acusadas de encarnação de um erotismo exacerbado. Verificamos que a lógica da sociedade patriarcal e escravista conseguiu ser mais perversa com as mulheres negras.
As mulheres negras conquistavam espaços públicos em meio a tensas relações de poder, diferindo radicalmente das mulheres brancas pertencentes às classes dominantes, que viviam enclausuradas em seus lares sob as ordens masculinas de maridos, pais ou irmãos. Estes aspectos conferem as mulheres negras um lugar especifico. Elas utilizaram o espaço urbano no ato de vender bens materiais como comidas e outros produtos e conseguiam financeiramente manter suas famílias.
No mercado também foram mediadoras de bens simbólicos e exerceram poder no campo religioso, assumindo o sacerdócio como ialorixás, mães-de-santo nos candomblés, tambor de mina e outras religiões de matriz africana, atuaram com devoção nas irmandades religiosas. Assumiram o papel de zeladoras das tradições africanas: estabelecendo laços de solidariedade, criando e fortalecendo as comunidades de terreiros.
A trajetória das mulheres negras foi demarcada de lutas e embates, contudo ainda hoje as relações de gênero e raciais convergem para fazer destas um grupo em desvantagem e com menos poder na sociedade, retraduzidas nos elevados índices desemprego, escolaridade insuficiente, violência sexual, doméstica e psicológica. Estas mulheres têm convivido com certas imposições sociais que, independente da época, possuem um traço comum: mantê-las em silêncio. A mulher negra cearense depara-se com dificuldades para configurar seu perfil feminino e isso têm sua razão de ser.
O racismo no Ceará ganha uma especificidade, prolifera o discurso da ausência de negros e negras, de que foi um dos primeiros estados a abolir a escravatura. Isto leva ao engendramento de uma perspectiva da invisibilidade desta população. Porém, há sim uma experiência social construída historicamente pela população negra no Ceará, as marcas ficaram presentes no seu engajamento no mundo do trabalho, nas práticas culturais e religiosas e nas lutas contra a discriminação e o preconceito. Em Fortaleza essa população negra tem convivido em meio às péssimas condições socioeconômicas, residindo na periferia desta metrópole. Essas condições adversas têm fortes repercussões nos processos de construção da sua identidade étnico-racial.
As mulheres negras são infelizmente identificadas por rótulos de incapacidade, por aspectos de negatividade quanto a sua estética, pesa a discriminação racial nos processos de seleção e alocação de mão-de-obra feminina, sobressai o quesito "boa aparência", focado num modelo de beleza etnocentrado. Acresce também a forma de atendimento destas mulheres nas instituições públicas, em muitos casos não são tratadas pelo nome, mas por expressões preconceituosas como "negona", "macaca" conformando o racismo institucional. No âmbito das relações amorosas, do padrão de matrimônio sobressai entre as negras as uniões estáveis, casam em geral mais tarde. Vale advertir que as relações amorosas e afetivas são construídas social e culturalmente. As mulheres brancas competem com vantagens com as mulheres negras.
Os homens negros têm preferido às mulheres brancas, e muitos fazem guiados pelo processo de branqueamento, crentes que conseguiram aceitação, status na hierarquia social. Este fato revela a forma como o racismo opera entre nós, distanciando-nos do sentido de pertença e identidade racial.
Diante do exposto precisamos acionar mecanismo e recursos que empodere os processos de autoconhecimento e autogestão das mulheres negras. No campo das instituições públicas, vale combater a discriminação de gênero e étnico-racial, não se equivocando com o sexismo "carinhoso" e o racismo cordial, que permanecem na exaltação da mulata como símbolo de nacionalidade e coisificação das negras para o trabalho desqualificado e objeto sexual. Vale apostar em ações que desvelem os processos discriminatórios e socializar as possibilidades que tem as mulheres negras impactando sua auto-estima.
*Zelma Madeira é professora do Departamento de Serviço Social da Uece, vice-coordenadora do Labvida/Uece. Mestra e doutoranda em Sociologia pela UFC, com pesquisa na área de religião e cultura de matriz africana.

sexta-feira, abril 13, 2007

segunda-feira, abril 02, 2007

Irena Sendler Assistente Social Candidata ao Premio Nobel da PAZ




FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DOS
ASSISTENTES SOCIAIS
APOIA NOMEAÇÃO DE IRENA SENDLER
PARA O PRÉMIO NOBEL DA PAZ


Reproduzimos a informação dos colega www.grinapss.blogspot.com

No cinquentenário da FIAS, que se comemorou durante a Conferência Mundial de Serviço Social realizada em Munique, Alemanha em Julho de 2006, fez-se o primeiro tributo oficial a uma extraordinária Assistente Social, Irena Sendler, “a mãe das crianças do Holocausto” a quem foi atribuído o prémio para “A Mais Distinta Assistente Social da FIAS”.
Irena Sendler ou “a Schindler desconhecida”, como alguns a designam, salvou a vida de 2.500 crianças do Gueto de Varsóvia, na Polónia, durante a II Guerra Mundial, colocando-as em famílias de acolhimento ou em orfanatos e evitando assim o trágico destino que as esperava: a morte no Gueto ou em campos de concentração.Retirava as crianças do Gueto, escondidas em malas, sacos ou em ambulâncias, dizendo que estavam com doenças infecto-contagiosas, guardando a informação sobre os seus verdadeiros pais em jarras que enterrava num local seguro que apenas ela conhecia. Foi presa, torturada e esteve condenada à morte. O suborno a um guarda da prisão livrou-a no entanto desse destino. Viveu escondida nos anos que antecederam o final da Guerra, tal como as crianças que salvou. Finda a Guerra desenterrou os documentos e iniciou o trabalho de procura do paradeiro dessas crianças, informando-as depois sobre a sua verdadeira origem. Infelizmente a maior parte dos seus familiares já não se encontravam com vida.

Entretanto o Parlamento polaco rendeu homenagem recentemente a esta Assistente Social que se destacou na luta contra o nacional-socialismo nos ghetos varzovianos durante a ocupação nazi da Polonia. O presidente do Senado reforço o seu carácter humanitário e pede que Irene Sendler seja recordada como uma heroina exemplo para a humanidade pelo que solicita apoio internacional para que lhe seja atribuído o Premio Nóbel da Paz.





De ser atribuído este premio, será a segunda assistente social a receber o premio Nobel da Paz, a seguir a Jane Addams.



Em Centro de Reabilitação InfaNtil Estudo Realizado Pelo Serviço Social Contribui a Determinar Proveniência de Utentes


O estudo do perfil social dos usuários do Centro de Reabilitação infantil (CRI), elaborado pelas assistentes sociais Clemeilda Pereira e Maria da Conceição Queiroz, indicou que quase metade da demanda é procedente da capital e a maioria das crianças atendidas é do sexo masculino.

O atendimento é voltado às crianças e adolescentes, até 18 anos, que apresentam problemas neurológicos, físicos, mentais, deficiências sensoriais ou múltiplas. O tratamento é programado de acordo com o diagnóstico e a indicação de um especialista. Não existe um alojamento de apoio, para os pacientes que residem no interior. Porém, como alguns precisam passar o dia no centro, eles dispõem de uma sala de repouso e alimentação fornecida pelo CRI.

A frequência varia entre semanal, quinzenal e mensal.Os pacientes chegam de todo o estado, encaminhados pelas unidades básicas de saúde ou hospitais de urgência. Atualmente, as consultas são agendadas diretamente no CRI, mas esse serviço passará a ser feito através da central de marcação de consultas, possivelmente, a partir de maio próximo. A nova forma de agendamento fará com que atenda-se apenas pacientes elegíveis, ou seja, aqueles que não necessitam de um atendimento emergencial.

Rilder Campos, diretor do centro, e Clemeilda Pereira, assistente social, explicaram que um dos motivos da mudança foi o receio em relação ao CRI se transformar em uma espécie de pronto-socorro. ‘‘Hoje é comum haver consultas e encaminhamentos errados e a intenção é que isso pare de acontecer. Existe também o desejo de se voltar mais para o paciente e dar um tratamento cada vez mais qualificado, especializado e dentro de uma perspectiva de humanização’’, complementou Rilder.

A intenção inicial do trabalho da assistente social foi de identificar o perfil social dos usuários que chegam aos ambulatórios do CRI, pela primeira vez. Cremeilda explica que o serviço social tem o primeiro contacto com os pacientes, escuta as queixas dos problemas e das condições de vida. Em seguida, passam por uma avaliação de diagnóstico e é iniciado o tratamento específico, com o especialista. Os que não são elegíveis, o serviço social encaminha para outras unidades de tratamento da cidade.

Os usuários de referência integram a população menos favorecida da sociedade norte-riograndense. Os dados recolhidos pelas autoras do trabalho mostraram que 54,9% dos pacientes têm idade entre 0 e 7 anos, apesar de as estatísticas do estado indicarem maior incidência no grupo de de 10 a 14 anos.Com relação as adultos que acompanham a criança durante o tratamento, descobriu-se que 84,4% dos pacientes chegam com as mães, 4,1% com os avós, 3,4% com os pais, 1,2% com os tios e 1,6% com outros responsáveis.

O fato de a imensa maioria ser acompanhada pelas mães retrata a idéia de que a responsabilidade dos cuidados com os filhos é uma atividade tipicamente feminina.É o caso de Luana Barbosa, que acompanha a filha Maria Vitória, durante o tratamento com a fisioterapeuta Milza Parente. A menina foi diagnosticada como portadora da Síndrome de Moebius, ainda recém-nascida e começou o tratamento no CRI, aos dois meses, por indicação da geneticista. Milza explicou que a Síndrome de Moebius provoca deficiência nos membros, ‘‘feição de boneca’’ (sem distinção do sorriso), e limitação no movimento dos olhos, podendo vir acompanhada de deficiência mental.

O estudo concluiu ainda que 48,9% dos usuários são de Natal e que praticamente metade das queixas são neurológicas (48%), seguidas pelas psicológicas (17,9%), ortopédicas (13,3%), fonoaudiológicas (8%), genéticas (2,5%) e psiquiátricas (2,5%).

Serviço Social O Verdadeiro Sarkozy